Tudo que eu quiser o cara lá de cima vai me dar?

Noite estrelada de Van Gogh

Esses dias estava assistindo o documentário de Xuxa, na Globo Play, e - como sempre - pensando nos meus caminhos. Em todas as minhas jornadas. Desde nova, me percebo com uma personalidade extremamente criativa, rebelde, obcecada com as coisas que quero, com muita vontade de aprender e transformar. Sou ambiciosa, sempre fui, nunca tive vergonha de falar. Hoje, compreendo meu sentimento de ambição até como uma rebeldia diante do que é posto para as mulheres.

Como mulher, porém, é interessante perceber como opera minha ambição. Nisso, vejo semelhanças com Xuxa. Possivelmente, com boa parte das mulheres. Apesar das exceções, quando nós conseguimos ser ambiciosas - quando não temos medo, vergonha ou culpa - a maior parte de nós não faz isso através de um desejo egoísta por poder. Queremos, em muito, dar conforto para nossas mães, avós, família, nosso ciclo. Queremos construir pontes. Não usamos o sucesso, normalmente, para consumir mais homens, mulheres ou para nos sentirmos mais mulheres, como fazem os homens. Para muitas de nós, o sucesso pode até significar um fardo. 

Como uma jornada do herói, é interessante observar o ciclo de vida de Xuxa até o momento. O quanto ela operou esse tipo de ambição feminina. E, por favor, não achem que estou querendo a colocar no lugar de perfeita, sem defeitos. Não é isso. Ela, inclusive, tem noção de que chegou onde chegou, com todas as pontes e atalhos, por sua imagem de Barbie, tão em alta no momento. Apesar disso, de seus atropelos, dos abusos que viveu, não podemos negar seu brilho, perseverança, presença de palco e talento.

Um dos primeiros filmes que assisti nas telonas foi Lua de Cristal. A sessão estava lotada. O filme também mostra uma jornada do herói especial para as mulheres. Apesar da coisa meio conto de fadas com Sérgio Mallandro de príncipe (só isso já é uma excelente piada), o sonho principal de Maria das Graças não é encontrar o grande amor, o mais comum nas narrativas para as meninas da minha geração. Se tornar uma cantora de sucesso era seu grande desejo. A música Lua de Cristal funcionou quase como um thetahealing coletivo. Instalou em nossas mentes o download: eu sou capaz de sonhar; eu sou capaz de brilhar; eu sou capaz de chegar lá.

Vislumbro na prática que as forças do universo estão sempre criando as pontes necessárias para chegarmos exatamente onde queremos. Sim, acredito que as forças do universo - não o cara lá de cima - vai me dar tudo que eu quiser. Às vezes, não é rápido, não é um passe de mágica. Além de ser preciso ter consciência do que queremos, desejamos, não nos deixar guiar pelo medo, fazermos o que precisa ser feito, há jornadas necessárias entre o ponto de partida e chegada.

Desejo um grande amor, com cumplicidade, afeto, carinho e respeito. Desejo abundância de saúde, de dinheiro, de amor de modo geral. Desejo amigos verdadeiros. Uma boa relação com minha família. Liberdade para fazer o que quero. Mas, não é só isso. Tenho sonhos concretos a serem realizados. Exatamente como já realizei muitos sonhados. Com minha mente treinada para planejar pela faculdade de arquitetura, vou transformando cada um desses sonhos em projetos palpáveis. Descubro muitas novas possibilidades, faço ajustes, enquanto desenho e construo. Projetos são quase sempre só pontos de partida. O futuro é mutável. Contudo, sempre moldável a partir dos nossos desejos.

Ultimamente, tenho lidado com a culpa e levado o tema para análise, justamente por ter chegado em alguns lugares tão antes sonhados, difíceis de serem alcançados. Com muita consciência, tenho feito o possível para não deixar nada me paralisar. A percepção de que o sucesso, incluindo o financeiro, é diferente quando se tem um óculos feminino para o mundo (homens também podem e devem o ter) tem me trazido muito mais clareza das razões das minhas ambições. Em meu inconsciente - percebi agora enquanto escrevo - deve haver uma rejeição significativa à imagem de sucesso comum, atrelada ao mundo masculino, ao poder destrutivo que os homens exercem sobre nós, sobre o planeta.

Falo desses meus movimentos tendo como pano de fundo a jornada de Xuxa justamente porque, diante de tantos pesos, tantas dificuldades, tantas mensagens de “você não pode”, “você não merece”, temos, de alguma maneira, perdido nossa fé. Nossa capacidade de sonhar, desejar. Vejo nossos desejos, vontades, como deuses e deusas que nos apontam direções. Um dos caminhos para aprendermos a caminhar, talvez, seja não questionar através do óculos do medo, da culpa, nossos desejos e vontades. Se você sente algo muito poderoso aí dentro, tenha certeza: esse algo é legítimo. Possivelmente, faz parte da sua humana jornada.

Amanhã faço 37 anos e estou nessa vibe de fazer revisões de fim de ciclo, início de novo. Tenho estado feliz, grata, por ter chegado em lugares desejados, caminhados com força de vontade, amor e dor. Viver desesperanças, se achar maluca, sonhadora demais (já escutei que era sonhadora demais…), só vislumbrar os necessários fracassos, faz parte. Como as jornadas de heróis das narrativas de ficção, há resistências. Revezes. E também sortes inesperadas. E na vida não há um topo. São zigue-zagues entre partidas e chegadas. E você, sabe exatamente para onde está indo? Tem coragem de desejar? Consegue mandar a culpa, a síndrome da impostora, pastar? E o mais importante: vai saber receber, desfrutar, quando seus sonhos se realizarem?


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A permanência e a impermanência dos amores em nossa vida.

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