A permanência e a impermanência dos amores em nossa vida.
Ao redor dela de Marc Chagall
Talvez esteja escrevendo antes do tempo. Ou, talvez, não haja tempo diante - justamente - das impermanências. Hoje, o que sei é isso. Amanhã pode ser diferente. Espero, diferente.
Estou finalizando o terceiro livro da série napolitana de Elena Ferrante. Quase no mesmo ponto do final da terceira temporada da série. Só um parênteses, fiquei impressionada com a produção impecável da HBO. Desde a adaptação, a direção de arte - infinitos aplausos para a cenografia do bairro, não acreditei quando soube que são cenários - a direção de modo geral, a escolha e a atuação dos atores e atrizes. As que interpretam Lila e Lenu na adolescência e primeira fase da vida adulta fazem um trabalho genial.
Há algum tempo tenho a consumido. Primeiro a série e depois os livros. Às vezes sinto profunda inveja do brilhantismo de Ferrante. O modo como articula as palavras, a beleza de sua narrativa. Como Lenu, me sinto incapaz. Impostora em minhas capacidades e talentos. Não tinha me atentado como não só a inveja, como a síndrome da impostora atravessam as personagens. Uma amiga brilhante me trouxe essa perspectiva.
Esses últimos dias - na verdade, desde que tive contato com a obra - fiquei pensando sobre as permanências e impermanências dos amores. E aqui nem falo apenas dos amores românticos. Falo até mais dos amores dos amigos, das amigas que vem e vão. Que, às vezes, ficam mais perto, às vezes, mais distantes. E de todos os novos laços inesperadamente fortes surgidos ao acaso.
Sou um serzinho de bastante apego. Sofro, tenho infinitas dificuldades de desenlaces. Como treino bastante esse tipo de agachamento, tenho ficado mais firminha. Confiado nos caminhos. Observado como, cada vez mais, tenho estado perto de quem realmente devia estar. Mesmo assim, há lamúrias. Não é fácil não mais estar. Principalmente, de quem se conhece tão bem - os defeitos, as qualidades, os invejáveis talentos.
Porém, como mostra Ferrante, nos distanciamos porque a permanência não é mais suportável. Talvez seja muito mais fácil nos separar de quem transamos do que dos amigos, das amigas. Remoemos, talvez, mais culpas, uma sensação: “ainda há algo a ser feito”. Ver, por tempos em tempos, quem amamos se afogar nas próprias lamas, mesmo com tantas potências, e nada conseguir fazer pode ser extremamente difícil. Pode gerar guerras difíceis de se vencer. Batalhas onde os dois lados se destroçam, se acabam.
Com a ajuda da análise, dos caminhos da vida, tenho aprendido: só quem pode limpar nossas lamas somos nós mesmas. Quem está perto pode nos alertar, tentar nos ajudar. Mas, se não queremos ou se ainda não estamos prontas, como quem está literalmente se afogando, podemos afogar. Não é incomum inundarmos o outro com nossas dores, nossos traumas, nossos medos, necessidades de poder e controle. Não há amor que sobreviva em meio a tanta disfuncionalidade.
Não sei ainda como acaba a tetralogia de Ferrante. Mas entendo a dor de não poder mais permanecer. Há questões do outro que se tornam insuportáveis. Ou pior: passam a nos ferir, agredir. De longe, sigo desejando mais consciência. Não porque seja ou me sinta melhor. Todos temos nossas lamas. Como me guio por esse caminho, o da consciência, tenho, cada vez mais, vivenciado seu potencial. Ao invés de transtornos, tristezas, angústias sem fim, podemos nos deparar com mais frequência com o contentamento, com a alegria, com a paz.
Viver com mais contentamento, alegria e paz, dando valor ao que realmente importa, ainda é um desafio. E ainda há quem sequer esteja pronto para aprender. Por isso, para as lamas que não são nossas não nos afogarem, precisamos ir. Desligar contatos. Simplesmente não permanecer em amores no qual costumávamos habitar. Confiar. O futuro, como sabemos, é incerto. Para acalentar meu apego, sigo com esperança. Guardo o amor. Aguardo o tempo. As possibilidades do futuro. Quem sabe, uma inesperada e mais saudável reconexão pode chegar.