Minha função não é te educar, nem resolver sua vida. Você precisa fazer seu caminho.

Memória 2 René Magritte

Hoje vou falar de um problema significativo de gênero. O quanto os homens esperam que resolvamos a vida deles. Com frequência, recebo pedidos: Dani, qual grupo de discussão de masculinidade você indica para eu participar? Qual livro posso ler? Quais conteúdos consumir para compreender e me livrar do meu machismo?

Acho bastante interessante o interesse em se transformar. Mas, esses pedidos de ajuda ainda demonstram uma inabilidade muito comum própria da socialização masculina. Como eles esperam que as mulheres lhe apontem caminhos, que lhes digam o que precisa ser feito. Bem na eterna posição do filho. 

Lembro de um professor de teoria da arquitetura que tive na Escola Superior Artística do Porto, durante um intercâmbio que fiz em Portugal. Pedro Vieira de Almeida nos ensinava sobre autonomia e pensamento crítico. Dizia com frequência: “é importante que vocês discordem de mim, que descubram por vocês mesmos caminhos para a construção do pensamento”. Apaixonada, não perdia uma aula. Deixei até de ir numa viagem. Hoje me arrependo um pouquinho da minha nerdice.

Muito antes de Pedro, de alguma forma, já seguia o script da autonomia. Além da minha energia capricorniana desconfiada e crítica, tenho dificuldade em absorver conhecimento das formas mais tradicionais. Nunca investiguei se tenho dislexia, TDAH ou coisas do tipo. Sei que sou capaz, inteligente. Mesmo assim, nunca fui tão boa aluna. Meu processo de aprendizado é mais individual. Eu comigo mesma. Quando criança, pedia para minha avó ler o assunto da prova. Escutar era o melhor para compreender, me concentrar. Depois, desenvolvi meus próprios ritmos.

Dentro disso, entre todas as minhas capacidades e inabilidades, sou uma pessoa que busca. Que tem sede por conhecimento, que precisa desesperadamente entender, se conhecer, transformar, melhorar. Desenvolvo o trabalho que desenvolvo não por acaso. Ele é o reflexo dos meus caminhos, das minhas escolhas. E, obviamente, das minhas inquietações, angústias.

Me refiro a um problema de gênero nessa falta de autonomia. Não tenho dúvidas do quanto ele é expressivo. Principalmente, nos homens da minha geração e também nos mais velhos. Porém, com a revolução tecnológica e da informação, tenho percebido que esse problema tem se expandido. Homens, mulheres, pessoas, têm perdido capacidades. Temos nos tornado preguiçosos. Um tanto quanto incapazes.

Por exemplo, quando anuncio o perfeito, sem defeitos, escrevo na legenda o site, digo que o link está na bio, escrevo que a bio é no início do perfil - entendo que algumas pessoas não entendem -, especifico os valores, as condições de pagamento, os canais de suporte. Mesmo assim, recebo infinitas mensagens: qual valor? Como comprar? O que é isso? Respondo todas com o maior prazer. Afinal, isso é meu negócio. Porém, me preocupa nossa incapacidade de ver, ler, procurar.

Fui professora por alguns anos. Um comentário comum entre os colegas era: os alunos estão se tornando cada vez mais limitados. Por mais que todas as informações fossem entregues - programa, conteúdos, prazos -, haviam perguntas frequentes do que já tinha sido dito, entregue por escrito. Com os colegas durante a pós-graduação não achei tão diferente. Delimitar o tema de pesquisa, definir o passo a passo, executá-la se torna para maioria uma tormenta. Culpa-se os orientadores pela falta de norte. E não que os orientadores não possam, por vezes, atrapalhar. Mas cadê nossa capacidade de definir? Decidir? Caminhar? Odeio que me digam o que fazer. Faço o que acredito.  

Hoje, ao contrário, ansiamos por alguém que nos diga. O excesso de informação pode estar nos tornando todos meio TDAH, imagino. Porém, será que não estamos mais preguiçosos justamente pelas facilidades? Sei lá qual podcast legal trata do tema da masculinidade, qual grupo pode te ajudar, quais perfis você deve seguir. Não tem um ditado que diz: o que mais importa não é a chegada e sim a caminhada?! Meus amigos ficavam putos quando afirmava: não quero ganhar na loteria; prefiro chegar lá pelo meu trabalho. Então, só para desdizer o que disse, digo: não deixa a era da informação, da inteligência artificial, retirar sua capacidade de buscar e realizar. E rapazes, por favor, aprendam: mulheres não existem para te servir, para te maternar; vocês precisam superar por vocês mesmos suas inabilidades; parem de ser os filhinhos da mamãe; criem vocês as transformações necessárias.


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