Já pensou nas razões pelas quais temos tantas dificuldades de superar os boys lixos?

Divulgação Bridgerton

Quem já assistiu todos os episódios lançados na última semana de Bridgerton levanta a mão! Não tenho dúvidas, os atores vieram fazer publi da série no Brasil justamente porque somos ávidos consumidores. Fico até com dúvidas se quem me lê gosta tanto, já que a obra é extremamente problemática. Se você assiste com olhos abertos, acho que a trama é, inclusive, ótima para pensarmos sobre os dispositivos de gênero comentados na última semana por aqui.

O lugar da prateleira do amor, como teoriza Valeska Zanello, no qual Penélope está por seu corpo não atender a estética padrão do momento, é um exemplo. Vi um comentário apontando o quanto essa percepção estava deslocada, tendo em vista que na monarquia Penélope era exatamente o corpo desejado. Mesmo sendo de época, a série busca refletir os valores atuais. Não por acaso, Collin é o típico homi perdido. Antes de se entregar ao verdadeiro amor, quase casa com uma moça que precisava de um pai para seu filho, depois, com as ideias bagunçadas, viaja sem rumo, se aventurando e consumindo infinitas mulheres quando, enfim, percebe o quanto é burro por não valorizar a doce Penélope. 

Para mim, isso é extremamente perigoso. Outra série que nos encheu de esperança sobre a salvação dos boys lixos foi, sem dúvida, Sex and The City. E hoje, com sua chegada na Netflix, fico preocupada sobre como várias dessas narrativas, ao invés de colaborar com a superação dos dispositivos de gênero, vão nos congelando no mesmo lugar. Nos dando esperança de salvar os homens perdidos. De como, em nada, contribuem para que superemos os relacionamentos tóxicos. A mensagem indireta que essas narrativas passam é: o nosso gostar, o nosso amor, é maior que o mal que essas relações nos fazem. Isso é ou não é assustador?

Tenho feito há alguns meses pesquisas no Tik Tok para entender como as pautas de gênero são discutidas por lá. Façam o teste: peguem a tag feminismo, joguem na lupa e morram de ódio. Ao invés de discussões interessantes, o que há é um monte de desinfluencers pregando o antifeminismo e a submissão da mulher. Na era dos algozesritmos, ser contrário aos movimentos progressistas gera buzz e mais cliques. Ou seja: parte do crescimento desses movimentos antifeministas e movimentos masculinistas vem desse lugar. E como coletivamente ainda temos pouca consciência sobre os problemas, fica difícil parte da sociedade não ser cooptada por esses discursos.

Esses últimos dias, fiquei pensando como esses dispositivos ainda hoje me colocam em lugares desconfortáveis, de como já tive imensas dificuldades de sair de relações no qual estava óbvio: não me cabiam. Pensei nas estratégias que diversos homens usaram para me manter presas a eles. Toda parte do jogo sobre ser homem, ser mulher e como alcançamos o lugar de valor está muito transparente. São as narrativas românticas, os ideais de amor, que embaçam nossa visão. 

Tem o clássico, o cara não te quer ou pode até querer e não ter coragem de encarar, mas ele não te deixa ir. Cria mil e uma estratégias para te manter perto, para chamar, de alguma maneira, sua atenção, para te alimentar com as migalhas. Quando você se afasta, manda mensagem, liga, inventa desculpas, diz: “sabia que sonhei com você?” Mesmo percebendo que você não o quer mais perto, ele dá um jeito. Já vivi isso algumas vezes. Já tive dificuldades de desapegar. 

Dentro da minha experiência, o que posso te dizer se você precisa sair do lugar de dependência é: muitos homens (pode ser mulher também) sabem que você tem a esperança de Penélope de ser, enfim, valorizada e escolhida, por isso se mantém por perto; e pior, se mantém por perto porque seu afeto alimenta autoestima e ego frágil deles. Então, essas pessoas literalmente te parasitam. Nesse momento, em minha cabeça, vem alguns nomes. E você se torna uma vítima justamente porque entendemos que ser mulher de valor está ligado ao fato de sermos escolhidas, como narra Bridgerton. É um ciclo vicioso. Também vejo gays e lésbicas caírem no mesmo lugar.

Apesar de poder resumir parte do que considero central desse problema num só parágrafo, chegar no lugar de conseguir virar as costas para os trastes requer um trabalho de transformação interna que, muitas vezes, não é rápido, nem fácil. Não temos como fugir da forma como nos ensinaram a ver o mundo. Mulheres que já saíram desse lugar - ou acha que saíram porque talvez seja meio impossível sair completamente - tenham paciência com as outras mulheres. Não é legal julgar ou apontar dedos.


Anterior
Anterior

Por mais que tenhamos ideias progressistas, já pensou que podemos nos tornar seres odiosos?

Próximo
Próximo

Por que para os homens se relacionar é motivo de chacota entre os pares?