Por que para os homens se relacionar é motivo de chacota entre os pares?
Sobre a cidade de Marc Chagall
Na noite passada, tive um sonho maluco. Nele, apareciam ex-boys e um deles falava: você não sabe escolher homem. Aquele clássico de que nós, mulheres, temos o dedo podre. Sempre afirmo: muito fácil ser mulher e ter o dedo podre, difícil é encontrar homens que não sejam podres.
As escolhas para nós, mulheres, além de limitadas porque sobram perebados, são condicionadas ao desespero por sermos a escolhida. Amamos homens fracos, medianos e ainda temos a esperança de o salvarmos da ignorância. Fazemos um intenso trabalho para transformá-los de feras em príncipes. Desde pequena somos condicionadas a sonhar com o amor, a priorizar o amor e as relações, a desejar profundamente ser escolhida. Por isso, não é de se espantar que amemos os podres. Parte disso, é o que compõe o conceito de dispositivo de gênero de Valeska Zanello.
Na crônica de hoje, quero exaltar o episódio do podcast Bom Dia Obvious com Valeska Zanello, chamado prateleira do amor, desejo masculino, padrões de beleza . Estou atrasada na leitura dos livros de Valeska, no episódio ela conta do lançamento de um novo em breve. A prateleira do amor: sobre mulheres, homens e relações será o próximo livro que iniciarei. Sempre que ouço sobre os conceitos da obra, me dá muito mais clareza sobre o universo dos relacionamentos.
Há semanas, fiz questão de chamar atenção de uns amigos num grupo de Whatsapp que constrangiam um outro por não estar saindo com os parças com tanta frequência por estar namorando. Simplesmente, apontei o machismo no discurso. Coisas como “a dona não deixa”, “a mulher não deixa”, fazem parte da narrativa de bullying dos homens. Depois desse episódio, fiquei pensando a respeito. Por que será que para os homens se relacionar com as mulheres é motivo de chacota entre os pares? Por que quando esses homens se relacionam é como se eles perdessem valor?
A relação entre homens costuma ser extremamente tóxica e castradora. Dificilmente homens se encontram para desabafar, para debater sobre os problemas da vida, para falar sobre sentimentos. São as mulheres que eles procuram quando precisam disso. Aos homens sobram infinitas dificuldades de lidar com as próprias emoções. O normal para eles é buscar fugas. Drogas, álcool, pornografia, compulsões sexuais e até coisas simples como os hobbies - futebol, skate, surf, e atividades do tipo. Não que hobbies e atividades físicas não sejam importantes, a questão é quando elas funcionam como lazer ou como fuga.
Se é nas relações entre amigas que vamos construindo boa parte de nosso repertório emocional, os homens simplesmente não o desenvolvem ou tardam a desenvolver tais habilidades. E acaba sobrando para gente também - mais uma vez - o trabalho de contribuir para o desenvolvimento emocional dos homens que nos relacionamos, incluindo os amigos. Por mais que a gente não devesse fazer esse trabalho, fica meio impossível não fazer. Não preciso nem dizer o quanto isso se torna ainda mais exaustivo para as mulheres.
No episódio do podcast, Valeska brinca que não é fazendo grupos de homens para chorar, nem pintando as unhas ou usando saias que esses homens vão ser capazes de evoluir emocionalmente. O caminho é se letrar nas questões de gênero. Entender as nuances da socialização masculina e sua perversidade para homens e mulheres. E mesmo quando esses homens estão em processo terapêutico, sinto que ainda são pouquíssimos profissionais capazes de contribuir com os sofrimentos existentes a partir dos marcadores de gênero.
Não é difícil percebermos que a masculinidade vigente foi construída em cima de valores de poder calcados no consumo das mulheres e no acúmulo de capital. Não por acaso, casar, se relacionar, enquanto é visto para mulheres como fator de valor, já que, enfim, elas foram escolhidas, para os homens é aspecto de desvalor já que eles, muitas vezes, precisam sair do lugar do garanhão. Então, como esses homens vão buscar validação entre os demais? Quando nova, escutava com frequência rodinhas de amigos de minha mãe falando sobre como traiam suas mulheres.
Valeska, em uma de suas pesquisas, aponta como esses discursos são comuns hoje nos grupos de Whatsapp. É também enviado pornografia e, pasmem,compartilhando vídeos e fotos íntimas das suas companheiras ou affairs que esses homens tem a chancela de valor entre os pares. E não preciso falar, vocês sabem de muitas outras violências, como as dos grupos de jogadores ouvidas recentemente. E o mais triste é: poucos, pouquíssimos homens, estão preocupados em debater, em estudar sobre os dispositivos de gênero, em realmente se transformar, em ouvir as mulheres. Poucos, pouquíssimos, estão dispostos a reservar uma horinha do seu dia para ouvir um podcast tão incrível como esse.