Por mais que tenhamos ideias progressistas, já pensou que podemos nos tornar seres odiosos?
Cabeça no prato com o gato de Gertrude Abercrombie
Fiquei impactada com o livro Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie. Há tempos queria ler uma ficção da autora, só tinha lido as não-ficções. Sejamos todos feministas você pode ler rapidinho e pensar sobre muitos aspectos da nossa vida em sociedade. Indico, principalmente, para os homens que estão abertos a pensar sobre o assunto. Sou apaixonadíssima também pelo O perigo de uma história única. Usei de referência na tese de doutorado e uso na vida. Foi uma palestra Tdex que deu origem a obra.
Voltando ao Hibisco Roxo, o livro trata de uma família, composta por pai, mãe, um filho mais velho e uma filha. Quando comecei, achei enfadonho por tratar bastante da religião católica, idas às missas aos domingos, uma rígida disciplina. O pai, Eugene, é muito benquisto em toda comunidade. Ajuda todos ao redor, a igreja, visita sempre o padre. É um rico empresário do ramo de alimentos e também dono de um jornal que contrapõe a ditadura Nigeriana. Essa ficção é ótima para pensarmos também no perigo das histórias únicas. E coloco aqui a narrativa cristã como uma história única.
Com o passar das páginas iniciais, a obra vai se tornando extremamente interessante. Eugene é tão crente dos paradigmas cristãos a ponto de se tornar violento com a sua família e abandonar o seu pai por ele manter suas crenças pagãs. Kambile, a filha, é a personagem principal e narradora. É através de seu olhar que vamos mergulhando nas vastas e ricas contradições da obra. Como também na cultura nigeriana, na sua forma de alimentação e nos conflitos de um tempo. Eu, por exemplo, como muito Inhame, mas, não sabia da popularidade do consumo da raiz na Nigéria. Fiquei pensando: provavelmente, foram as pessoas escravizadas da África que trouxeram essa tradição para cá.
Hibisco Roxo é maravilhoso para pensarmos sobre a colonização católica sobre os países africanos, trabalho hoje ainda em curso e ampliado pela presença das religiões evangélicas, sobre o domínio masculino, sobre a violência da ditadura, sobre tantas coisas mais, como a primeira paixão de uma menina. Porém, a marca mais intensa é a da violência do próprio patriarca. Impossível não pensar como esse homem tão adorado em sua comunidade e preocupado com coisas importantes foi capaz de tantas atrocidades.
A leitura do livro me trouxe a seguinte reflexão: como, algumas vezes, pessoas com ideias progressistas podem ser tão odiosas quanto os ditadores que elas mesmos criticam? Como, nós, mesmo tendo pontos de vista considerados revolucionários, podemos, por nossa falta de flexibilidade ou dogmatismo, nos portar de forma extremamente violenta e mesquinha? E, sim, não é difícil observar tais exemplos em nosso dia a dia.
No mundo extremamente polarizado com ajuda das redes sociais, estamos, infelizmente, cada vez mais imbuídos de ideologias, de crenças que pouco se comprometem com uma interpretação real da realidade. Tenho acompanhado, por exemplo, o crescimento de muitos perfis que se tornam bem sucedidos apenas por se portarem de forma muito crítica a alguns temas. Hoje, pasmem, há médicas ginecologistas nas redes defendendo o uso de anticoncepcional e outras sendo contrárias quase como marcadores de territórios, times em disputa. Já pensaram no perigo disso? Todo dogma, seja ele qual for, toda história única, seja ela qual for, tem seu perigo.
Quando fui me tornando cientista, ao ingressar na área acadêmica, uma das disciplinas que tive falava basicamente do perigo das ideologias na análise de nossos dados de pesquisa. E não que não possamos ter as nossas ideologias, nossas crenças do que é melhor, certo ou errado. Ou nossa religião. Porém, quando buscamos a verdade (pode ser até a nossa pessoal), quando buscamos responder às hipóteses científicas, precisamos colocar nossas ideologias de lado. Caso não façamos isso, teremos nossa visão embaçada.
Não sei nem se é correto considerar Eugene com ideias progressistas por ele ser contra a ditadura. Porém, esse personagem foi um homem dominado pela história única cristã com tanta veemência, a ponto de se sentir o portador da verdade e agir violentamente em função dela. Já vi isso acontecer em minha família. Gerações adoecidas como consequência nefasta disso. O que é o próprio processo de escravidão senão uma crença absoluta na não humanidade do povo negro? Essas pessoas que menciono da família são hoje bolsonaristas e não conseguem olhar para as inegáveis mentiras dessa narrativa.
A pergunta que deixo é: em qual lugar podemos estar reproduzindo esse padrão? Em qual lugar nosso desejo de poder se esconde nos discursos bonitos? Será que percebemos quando nos tornamos seres odiosos e violentos? Tenho sido agredida por pessoas conservadoras, que acham absurdo minha perspectiva de falar sobre prazer feminino e também por pessoas que considerava amigas. Uma delas usa justamente uma perspectiva de que meu feminismo é liberal e não antirracista, dizendo absurdos, inclusive, sobre minha vida pessoal e relacionamento. Em ambos os casos, penso eu, deve morar um profundo dogmatismo e também uma dificuldade de olhar para si, seus desejos, frustrações, dores e medos.