Amar é dar ao outro aquilo que sobra
Buquê de flores de Hilma af Klint
Era uma menininha linda, muito vaidosa e um tanto exibida. Cresceu, não se sabe muito bem porquê, sonhando com o amor. Amou desde sempre. No Jardim de infância, Pedro, depois Vitor e continuou. Se percebeu como ser pensante, logo inventou o amor.
Adolescente, quando começou a viver amores consumados, se deparou com o real. A fantasia, então, lhe pareceu um pouco mais tranquila. Por anos, foi apaixonadíssima pelo seu primeiro namorado antes de ser sua namorada. Logo após estrear com ele o primeiro beijo de sua vida, engatando o relacionamento, inacreditavelmente, se encantou por outro e decretou o fim. Depois, namorou um rapaz sem nem gostar direito.
O terceiro namorado, resolveu esperar. Gostaria de ter certeza. Até hoje não tem. Ainda duvida se o amou, mesmo tendo atravessado ao seu lado tanto tempo, tantos momentos.
Não sei se posso dizer, depois disso foi só ladeira abaixo. Ladeira abaixo parece dramático. Melhoremos: foram infinitos processos. Choros, desilusões, traições, preterimentos, abusos e também, pasmem, momentos de aconchego. Em todas as partes, muitas descobertas. Encontros com traumas da infância, jeitos tóxicos vindos da sua criação. Violências também aprendidas com sua família.
O amor, estar ao lado de alguém, é infinitamente bom, e infinitamente difícil. Felicidade e sofrimento. Encontro com quem somos, com o que nos inunda e transborda. Para mim, Lacan, esse papo de que “amar é dar o que não se tem” não cola. Damos exatamente o que sobra. Se há vidas passadas, possivelmente, é nos relacionamentos que vivemos alguns de nossos carmas.
E não é por isso, na minha opinião, que devemos fechar portas. Para mim, devemos é buscar ferramentas, insumos, consciência para sermos mais hábeis na construção (ou destruição) dos relacionamentos. Amar pode valer a pena.
Só não deveríamos ansiar tanto pelo amor. Não sei se fui boa nisso. Ansiei. Senti faltas. Mas fui amadurecendo. Me portando de forma mais tranquila. Algumas vezes, me fechando. Noutras, me abrindo, me apaixonando, seguindo. Ao saber o porquê ansiamos, o porquê desesperamos por sermos escolhidas, fica um pouco mais fácil experimentar o fluxo da vida. Ou voltar para nosso centro quando nos achamos perdidas.
Você não acha estranho não falarmos do amor de um lugar mais centrado? De um lado, a fantasia inalcançável, do outro apenas dor. Felizes para sempre ou assassinada como Ângela Diniz. Calma, com isso não quero negar problemas, nem deixar de combatê-los. Me coloco como instrumento de luta. Nesse momento específico, falo das narrativas consumidas.
Talvez, precisemos vislumbrar a poesia da realidade. Das fases da nossa vida. De quando estamos solteiras e vivendo as delícias e dores do momento. Do atravessar agridoce de anos dentro de um mesmo relacionamento. Dos fins libertadores e portais para novos recomeços. A vida está emaranhada nos arranjos e acontecimentos de cada tempo.