No dia que descobri minha gravidez, já sofri a primeira violência obstétrica.
Mulher ao lado da água de Henri Matisse
O ódio contra as mulheres está em todos os espaços, nas assembleias legislativas, nos hospitais, nas ruas e, infelizmente, dentro das nossas casas. Quando passei a olhar para esse ódio ao feminino, em muito capitaneado pela religião judaica-cristã com suas narrativas esdrúxulas sobre Eva, sobre o pecado, sobre a proteção dos homens e as violências que eles praticam, ficou mais fácil entender o porquê o mundo é assim. O porquê somos seres de segunda ordem.
A PL 1904 que compara o aborto a crime de homicídio nada mais é que misoginia, ódio profundo às mulheres, uma afirmativa do nosso lugar de sujeição e submissão a violência e poder dos homens. Estamos hoje lidando com a face desse horror que ocupa todos os lugares e sabemos: essa PL nada mais é do que massa de manobra política usando nossos corpos como moeda de troca.
Quando fiz um teste de gravidez de farmácia e vi um imediato positivo - já estava com 7 semanas de gestação - fiquei muito assustada. Havia tido um corrimento rosa nos dois dias anteriores e bastante cólica. Como meus ciclos não são regulares por conta da condição de ovário policístico, sempre tive atrasos na menstruação e, com esses sinais, estava esperando menstruar.
Nas semanas anteriores, estava em viagem com João, minha avó e mãe. Fomos para Buenos Aires e depois para o Rio de Janeiro. Passei o período da viagem um pouco desconfiada porque estava inchada, com os peitos doloridos, muito cansada. Fiquei repetindo em tom de piada: se eu estiver grávida, vai ser assim: 80/20, 80% da responsabilidade é de João e 20% minha. João já queria fazer o teste durante a viagem. Eu resolvi esperar um pouco para lidar com o resultado só na nossa volta.
Quando vi o positivo no teste junto com João, fiquei muito assustada. Tremia o corpo inteiro. Liguei para Juli, minha irmã. Estava com medo por conta das cólicas intensas, do corrimento e por um resultado de um exame feito nas semanas anteriores da viagem apontando que minha progesterona estava bem baixa, mesmo eu fazendo reposição. Esse exame me fez acreditar que não tinha muita chance de eu estar grávida. Fiquei, então, pensando: pode ter algo de errado. Fomos numa emergência hospitalar. Cheguei lá por volta das 21h. Meu desejo era fazer uma ultrassom para saber se estava tudo bem.
Ao chegar lá, a médica que me atendeu disse que esses sintomas poderiam acontecer. Não passou a ultrassom de imediato. Para ela, era preferível eu fazer com um especialista. Só o Beta HCG para confirmar a gestação. Após o resultado do exame, além de um “gravidíssima” em tom de piada, ela me veio com a seguinte frase enquanto me receitava suplementos e exames para eu fazer na sequência: se você estava desprotegida, já era para estar tomando ácido fólico há três meses. Disse isso em tom rude e sem se referir a João em nenhum momento. Praticamente ignorou sua presença.
Ela não sabia como engravidamos, qual o tipo de proteção ou não proteção usamos. E nem sabia se eu estava tomando ácido fólico ou não. No caso, eu estava. Não porque planejava engravidar. Mas, porque tinha no meu suplemento multivitamínico. Foi apenas violência gratuita. Ódio a mulher. Um desejo obscuro de me encher de culpa. Nenhuma vontade de acolher uma mulher que acabou de descobrir uma gravidez, uma coisa gigante, e, obviamente, está cheia de medos. Na verdade, empurrou mais um. “Se seu bebê tiver algum dano cerebral a culpa é sua, por não tomar ácido fólico antes, sua irresponsável”.
Minha irmã me contou que durante o seu parto, quando pediu a sua ginecologista analgesia, a médica que estava de plantão ali, lhe proferiu a seguinte frase: “Você não escolheu ter parto normal? Agora tem que aguentar a dor!” Sei que perto de outras realidades, esses relatos parecem pequenos. Eles vão escalonando em ambientes de menor poder aquisitivo e quando as mulheres em questão são mulheres negras. Para quem quiser pensar mais a respeito, indico o documentário Renascimento do Parto.
A ideia de que mulheres são seres de segunda ordem, mesmo vinda de outras mulheres, está presente em todos os momentos da nossa vida. Quando engravidamos, quando somos estupradas, quando decidimos abortar, quando o Estado controla nossos corpos e nos criminaliza. O ódio contra a mulher é reproduzido de mães para as filhas, por todos que nos cercam. O ódio contra a mulher, nossa ideia de sujeição, o estrupro que sofremos dentro de nossos lares é cultural. Por isso, precisamos falar muito mais sobre isso e criar leis de combate à misoginia.