Chamar mulher de louca é uma estratégia histórica dos homens para não assumir responsabilidades pelo mal que fazem.

Imagem Sonho e presentimento de Maria Izquierdo

Em um carnaval, estava nas ladeiras de Olinda com amigas. Era bem novinha. Não devia nem ter 20 anos ainda. Isso aconteceu bem na época que era normal os caras fazerem rodinha, colocando uma menina dentro e só abrindo para elas saírem depois dessa menina ter beijado todo grupo. Eu e minhas amigas andávamos grudadas, temendo que algo do tipo acontecesse conosco.

Além disso, era comum puxarem os nossos braços, meterem a mão no nosso corpo, forçar beijos avulsos. Eles também gostavam de dar notas a cada uma de nós ou simplesmente classificar: bonita, feia, gorda, magra. Um desses idiotas puxou minha amiga, depois dela se esquivar, a chamou de nariguda e feia. Obviamente, não suportou ser rejeitado. Imagina se naquela altura, ou hoje, esse homem seria capaz de perceber a violência praticada.

No mundo no qual vivemos, existe uma ideia coletiva de que as mulheres existem para servir aos homens. Por mais que tenhamos avançado muitas casas graças ao movimento das mulheres, graças ao feminismo, essa visão ainda permanece em nosso dia a dia. Infelizmente, ainda em nós mulheres também.

Quando terminei um relacionamento com um clássico abusador machista que afirmava que a ex era louca, devo ter virado a louca da vez. Não aceitando o fim, para mim, ele falava com certa frequência: seu problema é ser extremamente mimada, sua avó, Maria e Teresa (as mulheres que cuidaram de mim) lhe estragaram; você só faz o que você quer. O que essa fala dele revela? Eu não deveria ter vontades, desejos. Minha existência estava ali para lhe servir. Então, não poderia nunca me dar ao luxo de terminar uma relação que me fazia mal.

Não fiz uma pesquisa para trazer dados sobre o assunto, mas a maioria de nós já ouviu ou leu algo sobre a história da histeria feminina e do tratamento dela através de masturbação realizada por médicos nos séculos passados. Quantas narrativas, incluindo novelas, já relataram histórias na qual os maridos depositavam mulheres em manicômios para usurpar seus direitos, incluindo de ser apenas seres humanos. Quantos desses homens pararam para olhar para as suas próprias loucuras? Seu desejo doentio por domínio e poder?

Mal comida, mal amada, louca, histérica, sem noção. Quantas estratégias os homens usam desde sempre para não olhar para si e para o mal que nos fazem? Para não olhar para a humanidade que nos roubam? Para a violência que praticam sem nenhum senso crítico dos seus próprios atos?

Não estou aqui para falar especificamente de Neymar ou Luana Piovani (e com isso não quero dizer que não tenho lado, obviamente tenho). O importante, para mim, é a gente pensar nesse problema. Rememorar nossas experiências pessoais e perceber o quanto elas reforçam nosso lugar de objeto, de servidão, de suposta insanidade para que nos tornemos apenas obedientes. E com isso, possamos entender realmente o problema e nos reestabelecer, não aceitar. Falar, gritar, expor, explanar. 

Neymar, de alguma forma, simboliza todo o combo da masculinidade tóxica. O seu poder está vinculado aos vastos recursos que conquistou como jogador de futebol e com o consumo de infinitas mulheres. Muitos homens aprenderam que para ter valor, para ser amado e desejado, para ter poder, deveriam ter exatamente o que Neymar tem. E aprenderam isso de muitas formas, através de exemplos cotidianos, através dos filmes e todos tipos de narrativas.

Um dia, não sei quando, talvez grande parte desses homens entendam: o mundo não gira ao redor deles. As violências que vocês praticam, os estupros, os estupradores que vocês defendem, o mal que vocês nos fazem irão retornar para vocês. Já está retornando porque, apesar da autoestima delirante ainda presente, a rejeição a esse padrão de masculinidade é crescente. E vai ser cada vez mais. Talvez o momento peça: olhem para si, estudem sobre gênero, superem os paradigmas que os fazem seres mesquinhos e sem caráter.


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