Já reparou a forma como se retratam os momentos calientes nos filmes e séries? Como as mulheres quase nunca chegam lá?

Mulher se masturbando de Gustav Klimt 

Estou em viagem por Buenos Aires com João, minha mãe e vovó Lúcia. Vim, principalmente, para trazer vovó porque ela ama passear na cidade. Tinha um padrinho rico que a trazia desde nova. Buenos Aires é mesmo uma delícia, com ruas agradáveis, cafés e restaurantes gostosos. 

Nos momentos de descanso, estamos maratonando novamente a série Bridgerton. Acabamos ontem a primeira temporada e estamos ansiosas pelo lançamento da terceira, no dia 16 de maio. Vovó e mainha amam os livros soft porn açucarados, como o que deu origem a série. Eu e minhas irmãs compramos de presente para nossa mãe o box de livros da série Bridgerton e ela já leu e releu umas 5 vezes. 

Apesar de ser capturada pelas histórias de amor, problematizar é meu trabalho. Tem toda uma construção de críticas a série Bridgerton num artigo que escrevi em 2021 para o trevo.us . Nesse momento, o que mais me chamou atenção foram as cenas de sexo de Simon e Daphne. E, antes, não havia mencionado a questão.

Se Bridgerton foi escrito e televisionado também com a intenção de deixar as mulheres molhadinhas, qual imagem do ato a trama mostra? Na primeira temporada, há até cenas mais progressistas, mostrando Daphne se tocando sozinha e Simon operando a tática do Perfeito, sem Defeitos. Porém, no restante, como a maioria das séries e filmes, o ato é quase violento. Após o início da excitação, quase sempre há uma penetração bruta e uma completa ausência de foco no prazer feminino. Já notaram que, quase sempre, nessas composições  de imagens só os homens chegam lá?

Consumindo mil e uma narrativas do tipo, não é de se estranhar as nossas dificuldades. Por aqui, recebo uma infinidade de depoimentos de mulheres das mais diversas idades que nunca haviam experimentado um orgasmo e conseguiram com o uso do Perfeito, sem Defeitos. Embora o dispositivo que vendo seja uma maravilha, facilitando o caminho, mulheres experimentam dificuldades também por essas imagens projetadas, focadas na penetração, desconsiderando a existência de nosso ponto mágico e as maneiras de como chegamos lá.

Se nunca fez esse exercício, repare a partir de agora como são construídas todas as cenas calientes e se pergunte se isso se conecta ao prazer feminino de alguma forma. Eu, por exemplo, dificilmente chego lá só com meu duque dentro de mim. Preciso de outros estímulos como, por exemplo, me tocar nesse momento. Já viu essa cena em algum filme ou série? E não tem condições de já iniciar com a penetração e de forma intensa como costumam mostrar. Machuca. Não é bom, há estágios. 

Consegue entender como essas imagens são perversas para nós, mulheres? Como as narrativas moldam como nos comportamos, sendo uma parte significativa da nossa socialização, não é de se espantar que ainda hoje as mulheres tenham tantas dificuldades. E que homens sejam extremamente inábeis em dar prazer. Aqui, não estou nem colocando a pornografia na conta. Porque se colocar…

O prazer feminino é revolucionário justamente por isso: até hoje nos negam. Mesmo nas narrativas compostas para as mulheres, mesmo nas que tentam de alguma forma ser mais avançadas, como é Bridgerton, há excessos de brutalidade. Ontem, assistindo, fiquei com pena de Daphne. Um dia, quando tiver minha própria produtora e bastante dinheiro para conseguir lançar minhas obras, farei o maior esforço para construir essas cenas de uma forma completamente diferente. Mas, quem tem o dinheiro na mão agora (os homens), já poderiam começar a pensar nessas necessárias mudanças, não é?


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Para chegarmos ao topo precisamos nós, mulheres, sermos obsessivas? Controladoras?

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