Para chegarmos ao topo precisamos nós, mulheres, sermos obsessivas? Controladoras?

Anitta e Madonna — Foto: Manu Scarpa / Brazil News

No último sábado, fomos impactadas pelo show da revolucionária Madonna para uma multidão estimada em mais de 1,6 milhão de pessoas na praia de Copacabana. Depois de levar quase um golpe numa locação feita no Airbnb, cujo endereço não correspondia a localização mostrada, consegui de última hora um apartamento bem do ladinho do Copacabana Palace, onde pude assistir o show em segurança com amigos, meu boy, minha mãe e avó. 

É incrível o que essa mulher fez e faz. Só para começar, a Globo transmitiu uma cena performática de Madonna e Anitta recebendo linguadas de dançarinos ajoelhados com bundinhas de fora. Incrível, não?! Semana passada escrevi sobre como as narrativas audiovisuais sempre têm mostrado cenas calientes focalizando no prazer dos homens. Madonna, desde o início da carreira, faz questão de transgredir o status quo. 

No discurso que fez quando recebeu o prêmio mulher do ano pela Billboards, em 2017, depois de ser acusada pela teórica feminista Camille Paglia de ser um desserviço para as mulheres por se objetificar sexualmente, Madonna afirmou ser uma feminista má. Eu discordo. Madonna quando mostra seu corpo, mostra num lugar de poder, exercendo seu papel de sujeito. Se é chamada ainda hoje de controversa é porque são os homens que estão no lugar de sujeito e é a eles que devemos servir, não a nós mesmas ou aos nossos interesses.

E, convenhamos, se a sensualidade expressa por Madonna estivesse a serviço do patriarcado, o público que ocupou majoritariamente as areias de Copacabana não seriam de homens gays e mulheres. Se ao difundir hoje a palavra do prazer feminino, recebo uma infinidade de xingamentos, comentários com colagens de textos bíblicos, imagina tudo que Madonna enfrentou nos mais de 40 anos de sua carreira. Se ela chegou até aqui foi porque não lhe faltou determinação, autoconfiança e coragem. Diria também: propósito. 

Me chama atenção todo seu perfeccionismo e controle. Como leonina com muitos tons de terra, me identifico bastante. Para estarmos no topo, é preciso um árduo trabalho. Se vemos homens com destaque na música chegando bêbados e drogados para fazer seus shows, consumindo e engravidando fãs sem nenhuma responsabilidade, mulheres como Madonna ensaiam duro, estudam sem parar, são inventivas, se colocam no lugar obsessivo de busca da perfeição, do controle para que sua mensagem seja transmitida, porque se não for assim, não há espaço ou seremos empacotadas pelos interesses dominantes.

Apesar de todos esses esforços, ainda estaremos vulneráveis. Nesse mesmo icônico discurso de mulher do ano pela Billboards, Madonna também afirmou: na vida não há segurança verdadeira, exceto sua autoconfiança. Obviamente, há um preço a ser pago por tamanha pressão e vulnerabilidade. Mas, acredito: portas estão sendo abertas para, quem sabe um dia, o mundo não seja um lugar tão hostil para nós, mulheres.

Falar de amor, de ser mulher, das nossas fantasias, de como gostamos de dinheiro - afinal, no mundo em que vivemos ter dinheiro significa poder e, consequentemente, liberdade - ainda não nos é autorizado. Nos sobra o lugar do amor romântico, de musas, de sermos as escolhidas, de trabalhar duro e ainda assim sermos as únicas responsáveis por cuidar da família, do lar. 

Fiquei pensando após o show de Madonna: nós, mulheres, talvez sejamos seres não por natureza, mas por cultura, obsessivos e controladores. Identifico esse traço na maior parte das minhas amigas. De alguma maneira, a maior parte de nós busca reconhecimento, amor e, acima de tudo, perfeição. Essa energia, apesar de todos os seus aspectos negativos, de como ela nos adoece, tem sim um imenso poder, o precisamos reconhecer. Somos capazes de fazer muitas coisas. A questão é: como estamos canalizando esses nossos aspectos?

O que me incomoda bastante, ainda hoje, é observar como canalizamos tais características para sermos as escolhidas, aos nossos relacionamentos, as performances padrão de ser mulher. Se tem algo que Madonna nos ensina é o poder de colocar a nosso controle e nossa obsessão a serviço de nós mesmas, do nosso propósito, do nosso desejo de quebrar barreiras.


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Por que para os homens se relacionar é motivo de chacota entre os pares?

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Já reparou a forma como se retratam os momentos calientes nos filmes e séries? Como as mulheres quase nunca chegam lá?