Você tem se cuidado?
La Vicuña de Cecília Vicuña
Começando a vibe de fim de ano. Inclusive, já deixo o aviso: vou tirar férias das crônicas. Publico até a próxima semana e volto só depois do carnaval. O aviso tem ligação com o que escrevo hoje (ou nem tanto). Esse foi um ano que falamos muito da economia do cuidado e de como as mulheres estão sempre cuidando de todos e pouco de si. E porque será que não estamos cuidando de nós mesmas?
Leonina que sou, como para mim o sofrimento é algo intolerável, fico sempre criando estratégias de cuidar, proteger, quem está ao meu redor, de contribuir para amenizar as dores. Escrevo sobre ser mulher, sobre ser homem, também porque desejo “cuidar”. Vendo e difundo a palavra do Perfeito, sem Defeitos, porque, entre outras questões, acredito que quando somos autônomas podemos sair mais facilmente de relações desequilibradas. Coisa que, para mim, um dia, não foi tão fácil. O livro que estou escrevendo também envolve o cuidar, o educar para o não sofrimento. Sempre me angustio por não fazer mais. Sempre me cobram por mais.
Nos últimos anos fiz muitas coisas, encarei algumas batalhas, sem falar de todo o trauma que significou a pandemia. Como consequência, não sei mensurar muito do quê - talvez de tudo -, além de engordar e me sentir mal com isso, sigo acumulando algumas mazelas, como a síndrome do intestino irritável.
Fico pensando: é curioso como há síndromes, doenças e sintomas que recaem muito mais sobre as mulheres. Desde problemas intestinais, de pele, a dores crônicas como a fibromialgia. Qual será a ligação dessas doenças com o ser mulher? Com todas as responsabilidades e pressões que caem sobre nós?
A sobrecarga está para as mulheres. De formas diferentes, mais ou menos intensa, mais ou menos privilegiadas, mas está. Se destituir das infinitas responsabilidades que recaem sobre nós é tarefa quase impossível, pelo menos no agora.
Outro dia tive um sonho, era como se tivesse numa consulta para checar a disidrose das minhas mãos que voltaram a aparecer. Parecia uma coisa meio espiritual ou maluca - afinal, sonho - e a pessoa que me atendia do outro lado dizia: você precisa aprender a receber, a usufruir.
Até acho que sei, de alguma maneira, usufruir das coisas boas. Nessas últimas semanas viajei. Pude passear, comer comidas gostosas, tomar uns bons drinks. Porém, não consegui descansar. Nem parar de trabalhar. Não faço ideia de quantas vezes vomitei durante a viagem. Vomitei no banheiro do teatro enquanto assistia ao lindo show de Amaro de Freitas e Zé Manuel fazendo uma releitura do Clube da Esquina no Rio de Janeiro. Vomitei no banheiro do badalado restaurante Dom Júlio, em Buenos Aires, e também no da exuberante Confitería Ideal. Vomitar tem sido cotidiano para mim desde 2021. João, meu companheiro, fica preocupado. E eu pensando no que estou fazendo de errado.
Se cuidar não é tão simples ou fácil como dizem. Não é só incluir exercícios na rotina, alimentação saudável. Isso já faço. Vivemos num meio de extremo estímulo ao trabalho, de demonização do descanso, do autocuidado pintando através de coisas frágeis. Por exemplo, ter acesso ao prazer através de uma ferramenta como o Perfeito, sem Defeitos pode ser autocuidado. Mas, pode não ser suficiente. Principalmente, se você goza a meia noite, depois fica fritando na cama, angustiada com problemas de relacionamento, família, trabalho, com todas as pressões que você coloca sobre você ou das violências que você absorve de seu meio. Engraçado como as pessoas, cada vez mais, se sentem livres para violentar, seja nas redes ou fora delas. Ando meio exausta disso também.
O equilíbrio do autocuidado, longe dos slogans publicitários, é algo extremamente difícil de ser alcançado para as mulheres. Como não dispor grande parte da sua energia vital em cuidar, em se doar, em trabalhar excessivamente se exigindo perfeccionismo quando fomos formatadas para isso? Para sermos máquinas? A objetificação da mulher vai muito além da objetificação do olhar masculino. A sociedade nos objetifica. Nossos familiares nos objetificam. Nossos meio nos objetifica. Impossível fazermos o Caetano e tirar férias radicais. Um dia será esse privilégio que irei alcançar.