Dispositivos de prazer, como o Perfeito, sem Defeitos - o melhor sugador de clitóris -, são revolucionários para o prazer. Mas, devem ser usados com certa moderação

 Nossa senhora da Conceição de Djanira Motta e Silva

Passei um dia inteiro gravando novos conteúdos sobre o perfeitinho tão amado num lugar com vista espetacular no Rio de Janeiro. João, meu companheiro, é um ótimo filmmaker e tem me acompanhado nesses rolês. Como não somos bobos, nem nada, aproveitamos a locação para dar uma namoradinha. Depois desse dia, fiquei pensando: mesmo com o perfeitinho sendo a estrela do momento, a gente nem lembrou de usá-lo. Algumas vezes, usamos e é uma delícia. Meu boy ama me dar prazer. E se estou com ele, obviamente, é porque não se sente diminuído por um objeto de plástico. João não faz mais que o aceitável.

Estávamos no Macuca das Artes há algumas semanas e foi massa o tanto de gente que veio falar comigo. Para João, disseram: você tem que ser melhor que o Perfeito, sem Defeitos. Temos feito piadas com o desafio. Um casal contou que o perfeitinho mudou a vida deles. Fiquei bem emocionada. E uma menina veio também me dizer: não estava conseguindo mais gozar sem o Perfeito, sem Defeitos, nem quando estava acompanhada.

Já recebi por aqui alguns pedidos de ajuda do tipo. E por fazer uns dias que não uso o perfeitinho - talvez umas duas semanas para ser exata - lembrei de escrever sobre. Como tudo na vida, precisamos de moderação em seu uso. Como tudo na vida, há quem se torne dependente e quem precise desse contato com a dependência para compreender sua tendência à dependência e, se possível, transformar. Minha terapeuta comentou comigo sobre um caso de uma moça que precisou se livrar do seu sugador porque não queria fazer mais nada da vida a não ser usá-lo. E não era só nisso que ela era viciada. O vício é para ela, infelizmente, uma tendência.

Não há muitas pesquisas científicas falando sobre o possível vício ou dessensibilização do clitóris através de usos de dispositivos de prazer como o perfeitinho (por favor, vamos parar de chamá-los de sex toys, para mim esse nome também infantiliza o prazer e não me parece adequado). Porém, tem uma que sugere: sim, podemos ficar dessensibilizadas pelo uso frequente desses tipos de dispositivos (referência aqui).

Se hoje temos dificuldade de assistir a um filme de 2h sem mexer no celular, se estamos super habituadas a hiper estímulos, não é de se estranhar que no prazer sexual não fôssemos diferentes do que vem se consolidando como cultura contemporânea. Não acho que o apresentado na pesquisa seja algo para nos alarmarmos. Mas, sem dúvidas, é algo para pensarmos. E pensarmos de modo geral.

Eu mesma, uso sugador de clitóris há mais de quatro anos. Só meu primeiro Perfeito, piloto de teste, tem mais de dois anos, já já completa três. Nesse período, já fiquei um pouco dependente desse hiperestímulo. Também já usei bastante, quase diariamente. Depende do momento da vida. Minha líbido até anda meio contida. Às vezes, estamos estressadas, mal da cabeça, entre outras questões, que fica mais difícil gozar. Ou ficamos querendo gozar mais facilmente e rápido para aliviar. Sempre varia. Ter uma ferramenta poderosa na nossa mão é maravilhoso. Além de, claro, nos apresentar um tipo de prazer que desconhecíamos ser possível até então.

Como contei de início, tem épocas que não recorro tanto ao poder do Perfeito. Ter um companheiro ajuda. Porque, confesso, desenvolvi uma preguiça absurda em me masturbar só com os dedos. Antes dessa maravilhosidade perfeitinha em minha vida, acabava usando o combo: dedinhos mais pornografia. E a pornografia (nada contra ao tipo de conteúdo em si) acaba não sendo legal num mundo patriarcal. Meu conselho para quem me aborda diante de um possível vício ou dessensibilização é: intercalar, usar menos ou dar uma pausa por um tempinho.

A pesquisa que citei indica que não existe uma dessensibilização permanente do clitóris pelo uso de dispositivos de prazer. É só deixar de usar por um tempo que tudo volta ao normal. Desconfio que não seja algo físico. E, sim, algo mental. Um padrão de comportamento mesmo. Por isso, é bom a gente ter hábitos diversos no acesso ao prazer.

Portanto, vale fazer, eventualmente, a Eliana e lembrar dos dedinhos (perdão as jovens que não entenderam a piada). Se não conseguir ter acesso a uma pornografia de qualidade (coisa difícil), de repente vale a pena consumir contos ou livros eróticos. Pior que desconheço uns legais. Inclusive, tenho vontade de um dia criar um portal com esses conteúdos. As narrativas eróticas, como a pornografia, acabam pendendo para as problemáticas do machismo. De toda forma, o movimento que estamos construindo coletivamente de autonomia e acesso ao prazer, apesar de alguns efeitos colaterais, já é extremamente incrível e revolucionário. Acho justo descobrirmos questões sobre esse universo, para ajustar e expandir cada vez mais.


Anterior
Anterior

Você tem se cuidado?

Próximo
Próximo

O que sente que merece? Tem se permitido sonhar?