Por que produtos ligados a sexualidade feminina estão na mesma categoria que a pornografia, armas de fogo e falcatruas?
Mulher em meias pretas de Pierre Bonnard
Estou tentando contratar um serviço de automação do WhatsApp para o suporte do perfeito, sem defeitos. Meu objetivo é atender de forma mais efetiva e adequada quem compra comigo. Além de dúvidas sobre o produto, trocas, devoluções - básico de um suporte -, muitas e muitos de vocês usam esse canal para compartilhar questões íntimas, compreender como superar traumas, alcançar mais prazer. Preciso, cada dia mais, ter um atendimento amplo e eficiente.
Não vejo o perfeito, sem defeitos como um sex toy. Inclusive, odeio o nome “sex toy” ou “brinquedo erótico”. Essas nomenclaturas colocam esse e outros produtos numa categoria que é vista com bastante preconceito, como algo pervertido, impuro. E eu sou uma mulher adulta. O nome brinquedo não faz nenhum sentido para mim. Viver nossa sexualidade não é brincar, não é lúdico (embora também possa ser); viver nossa sexualidade é algo muito natural, necessário tal qual dormir e comer. Por isso, sou a favor de renomearmos a categoria.
Ao invés de “brinquedos sexuais”, passemos a chamar de “dispositivos de prazer”. Ao invés de “sex toys”, chamemos de “pleasures gadgets”. Diante da revolução tecnológica e da informação, “gadgets do prazer” me parece muito mais adequado. Muito mais natural, muito menos ofensivo. Com essa mudança, poderíamos ter uma visão coletiva menos preconceituosa sobre tais dispositivos.
No momento, não descobri ainda uma empresa que possa me atender no serviço de automação do WhatsApp. O perfeito, sem defeitos, enquanto produto, está dentro de uma política proibitiva do Meta. A mesma engloba a categoria de armas de fogo, pornografia, práticas discriminatórias, fraudulentas e enganosas. Não parece absurdamente incoerente? Mesmo assim, não é tão difícil entendermos de onde esses parâmetros vêm. A questão que fica é: por que o perfeito, sem defeitos, seria maléfico para a humanidade tal qual armas de fogo?
Há uma briga antiga de como essas plataformas e seus algoritmos, por exemplo, censuram o corpo feminino. Eles os definem como conteúdo sexual quando nitidamente não são. Afinal, por que o mamilo masculino não é erótico e o feminino é? Essa “visão” do algoritmo nada mais é do que a nossa percepção coletiva. O algoritmo reflete apenas a mesma estrutura opressora que recai sobre as mulheres. Nada de novo.
Em camadas conscientes e inconscientes da nossa psique ainda há a narrativa de que as mulheres desejantes, que gozam, não são confiáveis, são pecadoras e um monte de coisa mais. Afinal, o que o termo “puta” representa para você desde pequena? Já ouviu a classificação mulheres “para casar” e “para transar”? Tudo isso vai construindo no nosso imaginário o tipo de mulher a seguirmos. Ao mesmo tempo, somos ensinadas a usar nossa sexualidade como moeda de troca. Percebe como grande parte da nossa natureza vai sendo bloqueada?
É significativo (e bastante triste) que os gadgets para o prazer feminino estejam na mesma categoria da pornografia, armas de fogo e falcatruas. Porém, é urgente mudarmos coletivamente essa mentalidade. O perfeito, sem defeitos e vários produtos do tipo estão conectados à categoria de saúde. Ao acessarmos o prazer, ao desenvolvermos nossa autonomia, estamos construindo uma sociedade mais saudável. Mudar a política dessas plataformas é mudar também a visão sobre a nossa libido.
Ainda entenderemos uma mulher libidinosa como uma mulher saudável ao invés de uma mulher vulgar, depravada.
Meu desejo é um dia poder vender o perfeito, sem defeitos, nas farmácias, em lojas nas ruas da cidade e nos shoppings. E não em malas secretas, em porões ou mezaninos de lojas de lingeries. Meu sonho é que o prazer feminino e a sua vivência não seja encarado mais como algo impuro, pecaminoso, como coisa de mal amadas ou solitárias. E sim como algo absurdamente saudável e natural. Viver nossa sexualidade é viver nossa saúde integral.