“Meu ex escondeu meu Perfeito, sem Defeitos e nunca mais devolveu.” Foi a história absurda que uma cliente/leitora me contou
O homem do mar de René Magritte
Faço questão de, eventualmente, compartilhar as mensagens dos homi chiliquentos que destilam ódio em mim e quem usa o Perfeito, sem Defeitos. Semana passada, ao expor um desses das cavernas, soube de um acontecimento bizarro.
Ao visualizar o print do rei da masculinidade frágil, minha leitora/cliente relembrou de seu ex e me contou da sua prática de dar fim em seus gadgets do prazer. O primeiro foi um golfinho vibratório. Quando começou a namorar o traste, ele afirmou: “agora você tem um homem, não precisa mais disso”. E sumiu com o objeto de plástico. Não sendo boa pessoa, obviamente, ela acabou terminando a relação. Nesse meio tempo, soube da existência do Perfeito, sem Defeitos, juntou seu rico dinheirinho e o comprou. Ficou bastante feliz e alcançou seus necessários e relaxantes orgasmos.
Porém, a peste reapareceu. Não sei se coisa de mercúrio retrógrado ou reabertura de portais das trevas. Essas coisas que a gente acaba vivenciando mais uma vez para aprender a colocar pontos finais definitivos. Para entender quem de fato vale a pena seguir do nosso lado. O fato é: ele fez o teatro e ela resolveu dar mais uma chance.
Não teve outra, implicou com o Perfeito, sem Defeitos. Se comparou, mais uma vez, a um objeto de plástico pequeninho. Disputou com ele - pensem só na qualidade desse homem - e, novamente, escondeu o seu novo gadget. É claro que a relação com o integrante master do clube da masculinidade frágil chegou outra vez ao fim. Mesmo assim, ele se negou a devolver o Perfeito, sem Defeitos para ela. Mesmo após o final da relação, ainda quis exercer controle.
Quanto a isso, o problema em breve será resolvido. Sabendo do absurdo, obviamente me prontifiquei em lhe enviar um novo. Já já ela terá seu perfeitinho de volta. Quanto ao problema da masculinidade frágil, não sei quando poderemos resolver. É sempre inacreditável saber histórias do tipo, apesar de saber da onde elas vêm. Faço o trabalho que faço para também questionar esses padrões, essas violências.
Na pesquisa sobre sexualidade que desenvolvi, há diversos relatos semelhantes. Namorados, companheiros, maridos temendo objetos de plástico cuja única função é nos ajudar a experienciar orgasmos. A nos estimular a descobrir nossas potências, o que gostamos. Como funciona o nosso corpo nesse campo do prazer ainda tão demonizado. Além de gadgets para facilitar nosso gozo, os entendo como ferramentas de autoconhecimento. Ou seja: objetos indispensáveis.
Esse mesmo ser fragilzinho, segundo minha cliente/leitora, nunca abandonou a pornografia. Se masturbava sozinho fazendo uso desse mecanismo que, comumente, objetifica e violenta as mulheres. Não sou contra a pornografia. Acredito que todas as formas de narrativa podem ter lugar. Sou contra a forma como ela é produzida. Porém, a pornografia do jeito que é reflete apenas uma sociedade subalternizadora de mulheres.
Por isso, precisamos ficar atentas. De olhos abertos, como afirma a psicanalista Manuela Xavier. Se o boy disputa com um sugador de clitóris ou com qualquer outro objeto do tipo, coisa boa ele não é. Muito provavelmente, disputa porque no íntimo do seu consciente/inconsciente existe a crença: mulheres servem apenas para lhes servir. Por isso, não devem ter nenhum tipo de autonomia, como a de vivenciar um orgasmo sozinha. Além de ser bastante estúpido, porque usar o Perfeito, sem Defeitos juntos é uma delícia.
Aqui tenho uma infinidade de histórias e feedbacks de companheiros que compraram para suas companheiras, mulheres que presenteiam seus maridos e mulheres com esse gadget das deusas. Meu namorado, ao saber do meu business, antes até de ser meu namorado, foi logo sugerindo usarmos juntos. Em relações saudáveis não há domínio. Não há controle, nem medo da autonomia do outro. Há respeito e uma profunda alegria em ver seu parceire se derreter de prazer.