Como você lida com os seus fracassos?

Sol poente de Tarsila do Amaral

Dias desses, uma amiga me disse: minha vida só afunda. Obviamente, vejo diferente. Observo seu atravessar por desafios, transformações, crescimentos que, para ela, ainda podem ser insuficientes. A gente busca o topo, a felicidade. Se desfazer de todo e qualquer incômodo. Talvez, o segredo esteja não na busca da felicidade plena e sim na capacidade de desenvolvermos o contentamento. E, calma, o contentamento não é não buscar. Ficar imóvel. Isso seria impossível. Mas pensa: como você se sente agora? Consegue olhar para todos os caminhos traçados, incluindo os atropelos e perceber não só os fracassos? Consegue enxergar o seu crescimento? Amadurecimento? E também as escolhas certas? O trabalho bem feito?

Outro dia estava numa mesa de bar hablando de como pratico a intuição e  a aceitação na minha vida e nas minhas empresas (vêm projetos novos por aí, só não sei quando, no tempo certo). Apesar dos ódios absolutos e rompantes da lua em Áries, quando consigo, diante de algumas tretas na vida, na empresa do perfeito, sem defeitos, nas outras, penso: essa merda vai me ajudar a aprender algo, a melhorar minha operação, a estruturar melhor a minha equipe, a me tornar mais capaz, a me levar para uma melhor direção.

Sabe aquele papo de não ficarmos dando murros em ponta de faca? Só aprendi sobre dando muitos, claro. O papo também é sobre isso. Problemas existem para serem resolvidos, contornados. Desafios ocorrem para nosso crescimento, evolução. Relacionamentos desastrosos para aprendermos sobre nossos limites pessoais, para desenvolvermos nossa capacidade de ir embora. E assim vai.

Estava rolando o feed do Instagram e apareceu um vídeo no qual Jout Jout sabiamente afirmava: a vida está o tempo todo conversando com a gente; a gente precisa aprender a conversar com a vida. Concordo. A gente precisa saber sentir nossos ventos, compreender melhor nossas tempestades. E não só olhar para nossos fracassos como afundamentos, revezes ou castigos. Os fracassos fazem parte. Muitas vezes, os fracassos pegam nas nossas mãos e nos conduzem. Principalmente, quando estamos sendo teimosas, dando murros em pontas de faca.

Você também não precisa escrever no seu caderninho da gratidão: “universo, te agradeço por mais esse fracasso.” Acredito na necessidade de sentirmos os incômodos, as angústias, a dor, o que vier. Mas, não precisamos permanecer nesses sentimentos. Quando a gente mira esses sentimentos, quando a gente conversa com eles, é mais fácil compreendermos onde eles querem nos levar. Nos angustiamos, quase sempre, por termos desejos, vontades não realizadas. E, antes de alcançarmos certos lugares, é preciso, muitas vezes, superar traumas, transmutar crenças, lapidar nosso comportamento, personalidade.

Conversar com a vida é encarar onde cada desafio quer nos levar. O que essa agonia aí dentro está te dizendo. As angústias, em muito, refletem nossos sonhos, vontades incompreendidas, negligenciadas. Basicamente, um incômodo com a realidade atual. Esses sentimentos fazem a gente olhar para dentro. Quando estamos atentas, as angústias nos ajudam a nos transformar, a transmutar. A mudar de direção. O ideal é mergulhar sem se afogar.

Ao escrever minha biografia mentalmente até o momento, percebo que os momentos de mais angústia me levaram exatamente para onde eu precisava estar. Por exemplo, antes de ter o insight de vender o perfeito, sem defeitos, estava num momento bem difícil profissionalmente. Perdida sobre quais caminhos seguir. Pensando em voltar para vida acadêmica, mas sem nenhuma vontade. As coisas só aconteceram. Por mais que eu tenha me revirado, sofrido, não acreditado.

Quando estou no contentamento, conversando com a vida, consigo ter essa perspectiva. Noutras, só sofro. Fico com raiva. Algumas vezes, até consigo transportar essa visão para problemas mais amplos, como o machismo. Com a consciência de que ele destrói muitas vidas, percebo também que essa injustiça e nossa luta contra ela tem nos feito mais fortes, mais hábeis. Tem nos transformado e nos feito transformar. Desenvolvo o trabalho que desenvolvo também por ter vivido um monte de relacionamentos fracassados, profundamente atravessados pelos machismo. Olhar a vida desse modo pode ser uma maneira de lidar de forma menos sofrida, mais realística. Não me acho Poliana em nada.

Entendo que muitos não conseguem - ainda - sair do fundo. Para mim, tem sido um enorme desafio não querer arrancar quem amo de lá. Não podemos fazer um caminho pelo outro. Algumas vezes, queremos forçar caminhadas que não são nossas justamente para nos desviar do caminho que precisamos caminhar. Cada um tem seu próprio tempo. Precisa viver sua história. Seu processo. Fazer, não fazer. Contemplar, receber os sentimentos, os desejos, os insights que chegam intuitivamente até você. Agir, descansar. Construir, desfrutar. Olhar não só para o topo. Compreender justamente a importância das jornadas. Bem vibe mercúrio e júpiter retrógrados a crônica reflexiva de hoje, né?!


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