Quem não conhece a sua própria história - e não a cura - está fadada a repeti-la.

 Os fatos de Laurie Lipton

Tratando das grandes revoluções  no século XVIII, as que derrubaram o poder político da monarquia europeia, o filósofo Edmund Burke afirmou: “Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la.” Não tenho conhecimento se a psicanálise aproveitou algo do pensamento deste filósofo. Mas, de modo semelhante, ela compreende o sofrimento humano a partir também desse princípio, considerando, muito mais, o âmbito individual - a nossa infância e a relação com os nossos cuidadores. A nossa infância, a relação com os nossos cuidadores, tem também ligação direta com a história social coletiva, com nossa condição de raça, sexo, acesso material, entre outras questões.

Se olharmos direitinho, não é tão difícil percebermos que temos a tendência a repetir, no macro e micro aspecto, a história de nossos ancestrais. Semana passada, ao relatar o caso de um ex-namorado que furtou o Perfeito, sem Defeitos de uma das minhas leitoras/clientes, recebi inúmeras mensagens de casos semelhantes. Uma delas me contou: o ex-marido, que também furtou seu sugador de clitóris, foi extremamente abusivo e violento com ela, assim como seu pai com sua mãe e os maridos das suas irmãs com elas.

Ao lermos a história das nossas famílias, a história de homens e mulheres, vamos observar, a grosso modo, o mesmo padrão: homens abusadores e mulheres vítimas. Mulheres que se deixam ser vítimas e homens que perpetuam as violências de uma sociedade patriarcal. A questão que fica é: como podemos romper com esses ciclos? Como você acha que podemos romper esses ciclos?

Há de se convir que pais irresponsáveis, covardes, violentos, ausentes, traidores, podem produzir homens sua imagem e semelhança. Muitos, diante de uma figura paternal perversa, mesmo a negando, a rechaçando, não vão conseguir fazer diferente. Exatamente como fez o personagem Nino, da tetralogia de Elena Ferrante. Para nós, mulheres, infelizmente, não vai ser o inverso. Então, Dani, estamos todas e todos nós condenados ao inferno? Acredito que não.

Creio que estamos, cada vez mais, experimentando os piores infernos, os piores fundos do poço para emergir. Para nos atentarmos a romper ciclos, a fazer diferente. Já estamos, de algum modo, fazendo. E esse é um processo primeiro individual. Na minha percepção, esse processo individual pode trazer avanços coletivos. Não sei se vai ser mesmo assim... Talvez essa seja só minha forma esperançosa de perceber os mecanismos da vida.

Hoje, apesar de custoso, temos várias ferramentas de despertar de consciência e de cura disponíveis. Nunca antes na história tivemos tanto acesso à informação. Fazer análise/terapia semanal é, sem dúvida, caro. Poucos de nós - infelizmente - têm acesso a esse fundamental processo. Mas há uma infinidade de livros, podcasts, conteúdos gratuitos que podem nos ajudar a pensar, a irmos despertando aos poucos.

Um bom filme, uma série bem escrita, uma obra de literatura recheada de contradições, como é a de Ferrante, são instrumentos valiosos para refletirmos sobre nossa história individual e coletiva. Mas há outra questão: muitas vezes não temos nem consciência dos nossos infernos e o porquê de vivê-los. Só repetimos e repetimos. Nos angustiamos diariamente sem nem vislumbrar soluções. Por exemplo, uma amiga me dizia com frequência: “minha mãe é insuportável, só reclama da vida”. Adivinha o que hoje ela faz? Outra, segue o mesmo protocolo familiar de viver afundada em dívidas, arrancando os cabelos e contraindo novas para quitar os boletos que não deixam de chegar.

Na minha vida, repeti todos os padrões sociais e familiares de relacionamentos amorosos cagados, violentos, como fez minha mãe, minhas avós. Entender o que são relações saudáveis e como vivenciá-las, não por acaso, tem sido uma das minhas buscas. Consequentemente, uma das vertentes do meu trabalho. Como uma das minhas avós, também tive dívidas. Ainda cedo, com vinte e poucos, decidi não deixar mais isso acontecer. Como um passo além, incentivei e ensinei membros da minha família a investir para ter um agora e um futuro mais tranquilo. Talvez, exista mesmo o movimento de quem acorda querer acordar insistentemente - bem cronista palestrinha como eu - os demais. Filosofia pura meu pensamento.

Se você olhar para o lado com o óculos observador das repetições, é bem provável identificar esse mecanismo em quase tudo. De Bolsonaro as gaias levadas ou colocadas. A carta lida por Luiza Sonsa no programa de Ana Maria Braga versa sobre. E aqui não vou responsabilizar só as mulheres pela missão de fazer diferente. Fico puta quando - mais uma vez - essa responsabilidade só cai sobre nós. Muitas e muitas já estão acordando e trazendo luz. Sonho com o dia que haverá a mesma intensidade de movimento entre os homens. Talvez, eles precisem de mais inferno, de mais fundo do poço. Por isso, talvez, uma de nossas funções platônicas contemporâneas seja incendiar, gerar o caos, na caverna fedorenta deles. Quem me acompanha nessa missão?


Anterior
Anterior

Sobre os acontecimentos que interrompem o curso de ação das nossas vidas

Próximo
Próximo

“Meu ex escondeu meu Perfeito, sem Defeitos e nunca mais devolveu.” Foi a história absurda que uma cliente/leitora me contou