Sobre os acontecimentos que interrompem o curso de ação das nossas vidas

 Costureira de Djanira Motta e Silva

Semana passada assisti o filme Querido Menino, uma obra de 2018 que ressalta a relação de um pai e filho durante o acontecimento da dependência do adolescente às drogas. A ação inesperada desse fato - o vício do garoto - mudou o curso da história dessa família.

Durante o doutorado, estudei um pouco sobre o teatro épico do dramaturgo Bertold Brecht. Ele trata justamente dos acontecimentos transformadores e como nós, público, vamos nos conectar mais profundamente a essas estruturas narrativas. As razões disso me parecem óbvias. Nas nossas vidas, a todo momento, ocorrem acontecimentos inesperados. Há quem tenha palpitações só de me ler aqui lembrando dessa possibilidade. 

Hoje em dia, por exemplo, mesmo sendo bisneta de um casal que morreu numa queda de avião, deixando minha avó paterna órfã com apenas um ano de vida, não tenho mais tanto medo de voar. Ultimamente, ando tendo muito mais de estrada. Um acidente terrível há alguns anos - evento temporalmente mais próximo a mim - levou uma pessoa querida. A vida tem dessas coisas. E, por mais que eu seja a pessoa que sempre busca compreender as razões de tudo, algumas coisas simplesmente não têm razões. Ou até pode ser que tenham. A verdade é: não temos como saber.

Quando falamos dos acontecimentos, quando os observamos nas narrativas, é muito mais comum o associarmos a mudanças de curso negativas. O evento do sofrimento nos iguala enquanto seres humanos. A gente é capaz de compreender e se conectar a esses eventos, como afirma Brecht, por isso. Porém, também há acontecimentos positivos, felizes. Há ainda os negativos que nos fazem gerar, gestar, parir, algo novo; capaz de contribuir com as transformações necessárias.

Temos a capacidade de transformar fel em ouro. Calma: não estou dizendo que você precisa sempre transformar fel em ouro. Não precisamos ser gratas e buscar ressignificar tudo. É bem natural, quando olhamos ao redor, quando ouvimos as histórias de superação, observarmos como muitas pessoas têm a capacidade de pegar acontecimentos terríveis e gerar algo precioso. Ressignificar.

O filme mencionado se baseia numa história real escrita pelo pai do dependente químico. Ele buscou compreender esse acontecimento e conceber uma obra de suporte às famílias que vivenciam esse problema; usar sua escrita - muito provavelmente como faço, como a maioria dos escritores fazem - para depurar sentimentos. Escolhi meu universo de trabalho justamente por ter atravessado alguns infernos e por buscar decifrar o que nos faz entrar neles, o porquê desse fogo continuar a devastar.

Sobre os acontecimentos benéficos, nem sei se a gente consegue computá-los direito. Olhar para o ouro, só o ouro, que de repente recebemos. Quantos amores doces e cheios de amparo já surgiram assim na sua vida meio do nada? Sem você esperar? Ou os insights, os desejos, as viagens que te fizeram seguir por novas e melhores direções? Já computou por aí os prêmios da loteria que a vida também já te deu?

Nem só de revezes são formados os acontecimentos. E, como não podemos controlar, como não temos como saber, não faz nenhum sentido esperarmos sempre o mal. Como sou a doida que acredita na lei da atração, para mim, faz muito mais sentido ir projetando um futuro de acontecimentos felizes, abundantes e mágicos. Assim, sigo com mais paz. Obviamente, às vezes, também me pego entre mentais tormentos.

Quando um amor surgiu, recebi alguns conselhos dos perigos desse novo acontecimento. Com mais maturidade, confio no meu poder de percepção e tomada de decisão diante de qualquer infortúnio. Não sinto tantos medos. Um pouco, é inevitável. Muito louco: projetamos infernos não só para si como também para os outros. Não sei porquê, mas esse filme me fez pensar não só nos acontecimentos terríveis. Me fez lembrar que o amor, a despeito das inevitáveis tempestades, está em todo lugar.


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