Hoje tenho um conselho: redefina-se a partir da sua própria visão.
Valsa azul de Dorothea Tanning
Na minha família existe uma coisa chata de definir as nossas personalidades a partir de uma outra já existente em nosso ciclo. E, infelizmente, não é tanto pelas qualidades. São a partir de características de personalidade mais marcantes, algumas poderíamos chamar de defeitos. Sempre odiei isso. Demorei a compreender e combater tais atitudes.
A genética, sem dúvida, influencia. O meio igualmente. Mesmo assim, não somos uma cópia fiel dos nossos pais, avós, tias ou tios. Cada mistura gera identidades únicas. Como acredito na existência de vidas passadas, para mim, tudo se torna ainda muito mais complexo.
Também existe uma coisa insuportável que os adultos fazem de definir as crianças como lentas, desatentas, malcriadas, chatas, difíceis ou até mesmo lindas, adoráveis, educadas e inteligentes. E essa preocupação não me vem agora porque vou me tornar mãe, embora ela não deixe de ser válida para minha nova realidade. Tenho pensado sobre justamente pela consciência do imenso trabalho que tem sido me redefinir.
Escutei ao longo de muitos anos que era, sim, inteligente. Isso, de alguma maneira, deve ter me incentivado. Nesse aspecto, não diria que me aprisionou. Talvez porque essas palavras não tenham vindo exatamente de quem me criou. Deles, escutei com frequência o quanto era desorganizada, preguiçosa, sonhadora, incapaz de muitas formas. De fato, não funciono dentro de um sistema padrão. Tenho ritmos diferentes.
Descobri em algum momento da minha vida escolar que não precisava estudar durante o ano com afinco porque as provas finais eram extremamente fáceis. Porém, quando fiz intercâmbio durante a faculdade de arquitetura, optei por não viajar para o Marrocos com minhas amigas simplesmente porque não queria perder uma única aula de um professor que amava. Também já perdi uma viagem de família para Fernando de Noronha porque não queria faltar a um congresso. Só agora também me percebo como nerd.
Não sei muito bem porquê, comecei a olhar para minha trajetória até aqui e pensar: caramba, sou muito focada, organizada, disciplinada. Fui planejando e executando muitas coisas ao longo da minha vida. Não sou perdida e enjoo fácil das coisas como me fizeram crer. Gosto de mudar de territórios, expandir minha capacidade de trabalho. Em essência, descobrir o que faz sentido para mim. Sou constante nos estudos, no desenvolvimento pessoal, na atividade da escrita, no autocuidado. Essa autoimagem demorou para chegar até mim.
Hoje, olho para meus esforços, para minha coragem, não como vaidade, mas como qualidades. Fico pensando: essa autoimagem mais positiva que venho desenvolvendo me traz mais tranquilidade, bem-estar. Quantas pressões me coloquei, quantos julgamentos... Se esse peso me ajudou de alguma forma, não tenho dúvidas: também me adoeceu, também tirou meu sono, meu brilho, minha segurança.
Olho ao meu redor. Para quem está perto, para quem recebeu todos esses tons de muitas definições negativas por suas particularidades. Por não se encontrar nos padrões sociais, raciais, sexuais e de gênero dominantes. Apesar de ser uma mulher cis, heterossexual, também estou longe de ser uma mulher dentro dos padrões, não falo nem do meu corpo, falo das minhas atitudes.
Quantos pesos carregamos que não são nossos? Que não correspondem à nossa essência? Será que vemos de fato nossas qualidades? Nossos diferenciais? Como somos especiais em muitos aspectos? Esse exercício de se redefinir a partir do seu próprio olhar, da sua própria trajetória, teimosia, perseverança em ser quem você é e não o que esperam de você pode, penso eu, te trazer mais tranquilidade, compaixão, valor… E um monte de coisa que nem sei mensurar.