Precisamos urgentemente parar de fazer pessoas estúpidas famosas.

Ensaio de Baile de Maria Izquierdo

Ao ver páginas progressistas e de esquerda compartilhando vídeos e dando palco para pessoas estúpidas, como o pastor que afirmou que os pais não deveriam mandar seus filhos para faculdade, fico tendo siricuticos, urticárias. Não aprendemos nada depois da ascensão do inominável e sua eleição a presidente? Já era para estarmos mais espertos.

Semana passada, fiz o exercício de me cadastrar na plataforma de streaming da Brasil Paralelo para assistir ao “documentário” sobre a possível fraude na história de Maria da Penha e a criação da lei. Qual a prática desses extremistas? Criar teorias da conspiração, pondo em dúvida a nossa ética e moral.

No caso de Maria da Penha, eles questionam também o processo de criação da lei como um requisito para o Brasil ocupar uma das cadeiras da ONU. Em nenhum momento se discute a importância da lei, nem toda a dimensão da violência masculina factual e histórica. O que se apresenta é: as possíveis injustiças das leis como, para o canal, aconteceu com o caso de um dos narradores do documentário. 

Não quero nem entrar no mérito desses absurdos, me importa divagar sobre as estratégias usadas pelos extremistas. No doutorado, pesquisei sobre o poder das narrativas. Esse tema me parece central para os avanços que precisamos construir. Esses extremistas, não sei se é exagero chamá-los também de terroristas, já sacaram há tempos. 

Por conta de uma narrativa tendenciosa com ares documental para um espectador menos consciente, hoje Maria da Penha precisa ter proteção do Estado devido a ataques e perseguições. Isso passou a acontecer justamente após a publicação do Brasil Paralelo. As narrativas têm o poder de promover tanto os avanços, como os retrocessos. Ao olhar para a religião católica ao longo da história e as narrativas difundidas, por exemplo, conseguiremos ver ambos destes aspectos com bastante força.

Entendem como precisamos urgentemente mudar o jogo? Pensar estratégias coletivas para nos proteger do retrocesso? E eu não falo sobre ser de direita e de esquerda, não é mesmo sobre isso. A polarização capitaneada pelas redes, da forma como é, nos torna extremamente estúpidos. Não podemos compartilhar esses absurdos com um desejo de ter mais cliques e engajamento sem pensar nas consequências disso.

E não acho que precisamos jogar necessariamente o mesmo jogo dos adversários, nem agir sem ética. Mas podemos olhar para as ferramentas que eles usam. Desmoralizar certas figuras extremistas não é difícil. Muitos são cheios de culpas no cartório e agem para se proteger, para proteger seus interesses. Porque, ao invés de falar de pastores específicos, não produzimos e difundimos narrativas que falam especificamente dos interesses nefastos dessas organizações de forma coletiva?

Recentemente, comecei a  compartilhar recortes de vídeos, séries, filmes e documentários com construções narrativas poderosíssimas de ficção ou não ficção justamente porque percebo que elas são fundamentais para gerar certos despertares. Me tornei escritora, dramaturga e roteirista porque a escrita é uma poderosa ferramenta para dar vazão ao meu desejo de contribuir. 

E se, ao invés de compartilharmos vídeos desse extremistas falando absurdos, compartilhássemos narrativas mostrando o contrário sem citá-los e muito mais? E se começarmos a conscientizar como as narrativas têm um grande poder de influência para o bem e para o mal? De como elas podem moldar nossas ações e pensamentos? Para quem quiser se aprofundar, o livro Sapiens, de Yuval Harari, é incrível. Na minha tese, também aprofundo nisso.


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Hoje tenho um conselho: redefina-se a partir da sua própria visão.

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No dia que descobri minha gravidez, já sofri a primeira violência obstétrica.