Será que machismo produz narcisistas em série?

Decalque de René Magritte

Semana passada me ocorreu essa hipótese. Lembrei dos perfis mais narcisistas que me relacionei. Ambos formados por homens extremamente inseguros, embora não quisessem demonstrar, e bastante machistas. Há um comportamento um tanto clássico entre eles, um profundo desejo de se sentir amado e um medo imenso de ser rejeitado. Para isso, exercem diversas formas de controle, a maior parte delas através da manipulação.

Hoje convencionamos chamar qualquer violência masculina nos relacionamentos de narcisismo. Isso, de alguma forma, reforça minha hipótese. Mas, por outro lado, não me parece tão correto. As masculinidades vigentes formatam socialmente uma infinidade de violências e a ciência ainda, infelizmente, não se debruçou a estudá-las e classificá-las como, penso eu, merecíamos.

Da minha parte, olho para isso como curiosa, como escritora, como artista que vai compondo narrativas tendo como pano de fundo essa realidade. Porém, fico na dúvida: será que homens traem porque em grande medida são narcisistas? Os que me xingam por aqui quase diariamente por eu espalhar a palavra do Perfeito, sem Defeitos e defender a autonomia feminina teriam traços narcisistas? E os feminicidas? E os estupradores? Será que o machismo produz certos tipos de psicopatia como a pedofilia?

Fazendo uma pesquisa rápida com minha base de leitoras, mais de 90% acredita já ter se relacionado com narcisistas. Será que todos de fato têm características de perfil narcisista? Ou só são machistas mesmo? Ou há uma profunda interseção entre essas personalidades?

Olhando para meu passado fica fácil enquadrar vários nomes como narcisistas. Alguns, no entanto, tenho dúvidas. O que me ajuda a classificar é a existência da manipulação, além propriamente da violência, das mancadas. E nem sei se estou certa aqui, é como fiz esse mapa particular. Tem homens que te violentam sem te diminuir e tem os que te diminuem bastante antes e depois de te violentar.

Nessa breve pesquisa, recebi relatos no qual me identifiquei. Um ex me manipulava para não falar da nossa vida pessoal com ninguém. O da minha leitora a manipulou, inclusive, para que ela não buscasse ajuda terapêutica. Tem também os que diminuem nossas conquistas. Os que praticam loving bombing - aquele bombardeio amoroso inicial - e não querem de fato se relacionar conosco, ou não exclusivamente, sem deixar claro. Esses são do mesmo time dos que emitem sinais confusos e quando você se afasta reaparecem. Tem os que te culpam por todos os problemas de sua vida. Além dos clássicos “loucas”, “surtadas” e por aí vai. Lembro de uma amiga que viu uma traição acontecendo e seu ex a fez acreditar que ela estava imaginando coisas. Acredita?

Antes que apareçam perguntando “então, quer dizer que não tem mulher narcisista?”, reforço: não estamos falando de casos isolados, estamos falando de predominância de características em certos grupos. E sim, há mulheres narcisistas. Há mulheres lésbicas que importam nas suas relações os mesmos códigos escrotos do machismo. Há homens gays extremamente narcisistas e achando que o caminho é ser cada vez mais escroto, não olhando ou não percebendo seu imenso sofrimento interno. 

Minha questão é: como o machismo tem moldado os comportamentos narcisistas? Ou pelo menos o que convencionamos chamar de narcisismo? Tive um amigo que se relacionou com uma mulher um tanto quanto narcisista, ela reproduzia em grande parte um padrão clássico do machismo. Também tem mulheres que para se sentir vencedoras na prateleira do amor manipulam homens, violentam outras mulheres, disputam narcisicamente esse lugar da escolhida. Só por almejarmos tanto sermos as escolhidas, talvez, já configure em muitas mulheres, além dos infinitos pesos e distúrbios psicológicos e de imagem, certas características de personalidade narcisista.

Escrevendo aqui, foram surgindo muitas novas hipóteses. Tenho a impressão que esse tema merece ainda ser muito mais estudado. Uma grande referência nos estudos de gênero, para mim, tem sido a pesquisadora Valeska Zanello. Assisti outro dia um pedacinho de uma suas lives e ela relatava o quanto os estudos sobre masculinidade, por exemplo, ainda são pouco numerosos e desenvolvidos majoritariamente por pesquisadoras mulheres. Como somos as maiores vítimas, acaba ficando conosco o desejo de nos aprofundar no tema e buscar soluções pragmáticas para o problema. Bastante injusto, não é?!


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Ser homem e desrespeitar mulheres, mulheres grávidas, infelizmente, é lugar comum.

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Hoje tenho um conselho: redefina-se a partir da sua própria visão.