O que é prazer para você? Pensa comigo: como você tem acessado o prazer?
Festa junina de Anita Malfatti
Já vou avisando: a crônica reflexiva de hoje vai fundo no íntimo do nosso sadomasoquismo. Sei lá, ando um pouco exausta nos últimos tempos. Talvez, por isso, tive esse insight. E assim, o insight não veio do nada. Teve autorreflexão mediada na terapia, conflitos na vida doméstica, tretas com governo, com os Correios, na organização da minha empresa, um episódio do Bom dia Obvious, a chegada no final do quarto livro da tetralogia de Ferrante, os cochilos durante a tarde que meu namorado, quando consegue, costuma dar…
Afinal, o que me dá prazer? O que te dá prazer? Agora exclui da conta o Perfeito, sem Defeitos. Meu namorado, por exemplo, adora cochilar, assistir algo na TV, dar um rolê de skate com os amigos. Como eu, ele trabalha de domingo a domingo. Porém, diferente de mim, parece se permitir um pouco mais. Tem outras questões na conta também.
Como mulher, muito possivelmente, aprendi a ter prazer através do sofrimento, de uma doação além da conta. Por exemplo, escrever essa crônica numa madrugada, tendo que acordar cedo para pegar estrada e não ter ainda arrumado minha mala me dá um prazer absurdo. Trabalhar me enche de tesão porque consigo dar fruição a minha criatividade, aos meus pensamentos obsessivos, a meu desejo egoico de ser heroína e contribuir um pouco com as transformações que julgo necessárias.
Não há referências no imaginário feminino do prazer como descanso. Temos prazer cuidando, amando. Quase sempre, servindo. A gente aprendeu sobre o prazer no reconhecimento através do olhar do outro: “Que menina mais linda.”; “Como você é inteligente.”; “Que comida deliciosa.”; “Que casa bonita.”; “Como seu trabalho é importante, por favor continue.”
Existe um buraco no qual as mulheres estão tentando sair. Mas, talvez, a gente não perceba: estamos nos enfiando mais. Não sei se os homens chegam a ter tantos burnouts como nós. A gente não se permite apreciar um prato de comida ou uma sobremesa sem culpa, um descanso, um cochilo no meio da tarde quando abre uma inesperada brecha na agenda. E férias? Mesmo sendo obrigatório por lei, conheço quem nunca as tenha gozado. Com a revolução tecnológica da informação, com a queda das proteções trabalhistas, está tudo muito pior.
Entendo: para alcançar os lugares que estamos alcançando - aqui falo das mulheres especificamente - é meio necessário nos auto explorar, sermos obsessivas, perfeccionistas. Já fui muito odiada em ambientes de trabalho. Já fui a preferida do chefe, a que recebeu alguns prêmios. Fazer um trabalho bem feito sempre foi minha prioridade. Poderia ter outras. E, talvez, precise ter outras.
Acontece que as mulheres da minha geração, apesar de toda pressão estética e da maternidade compulsória, foram criadas para isso. Para serem impecáveis no trabalho e não dependerem mais dos homens. Afinal, depender financeiramente deles significou para nós, por séculos, uma infinidade de violências.
Embora não tenhamos superado a dependência emocional, dentro do meu recorte social - mulher branca, de classe média - pela primeira vez na história não somos mais dependentes financeiramente dos homens. Na geração da minha mãe, embora muitas tenham alcançado esse patamar, ainda me parece um número pequeno, não global. Jogando mais hipóteses no ar, apesar de não sermos donas das riquezas e dos meios de produção, estamos um pouco melhor colocadas no mercado de trabalho comparada a eles. Tenho essa impressão ao olhar para meus colegas de escola, de faculdade.
Porém, a que custo? São muitas questões envolvidas. A autoexploração é, sem dúvidas, resultado dos nossos movimentos sociais contemporâneos. Para mim, é também uma questão de gênero conectada ao modo como acessamos o prazer. Muito possivelmente, ainda buscamos ser a mesma menina perfeitinha - talvez a rebeldia seja a nova perfeição - apenas para nos sentirmos mais amadas. Nos enchemos de culpa, não nos permitimos pausar por muitos medos. Nossas faltas são ancestrais. Não faço ideia de qual caminho precisamos seguir. Estou tentando muito mais mapear as razões e não me culpar tanto, a me permitir um pouquinho mais.