Você costuma reclamar, chorar, pelas mesmas razões ou consegue mudar de rota para contornar sofrimentos?

Mulher chorando de Pablo Picasso

Com certa frequência, os homi que não gostam do meu trabalho difundidor da autonomia feminina, principalmente através da venda do Perfeito, sem Defeitos (o melhor sugador de clitóris), me chamam de vitimista. Os conservadores ultraliberais gostam da palavra “vitimista” para desconsiderar completamente as históricas estruturas opressoras, como raça, sexo, condição material, entre outros, quando questionamos ou apresentamos os dados de realidade.

Por conseguir me mover, não me acho vitimista. Sim, sou vítima de uma sociedade que oprime mulheres. Ter medo de sair na rua e ser estuprada, sentimento muito comum à minha condição de nascimento - ainda que branca, cheia de privilégios - é uma violência considerável de ser vivenciada no dia a dia, como são muitas e muitas outras. Na minha visão, não devemos classificar as violências entre melhores e piores. Violências são violências e simplesmente não deveriam existir. 

Fiquei pensando sobre nossos dados de realidade que nos fazem vítimas de algo e como muitas de nós vai conseguir transmutar uma condição posta, ou como muitas simplesmente não vão conseguir sair, se mover. Ou vão ainda para lugares piores, muito mais precários. O lugar de vítima - no qual todas e todos estamos por alguma razão - ao invés de servir de mola propulsora servirá de prisão. De imaginária prisão. Obviamente, há violências que simplesmente não temos como escapar. Mas há formas e formas de reagirmos.

Como sempre, esses pensamentos não ficaram pipocando na minha cabeça por acaso. Sábado passado me despedi da tetralogia napolitana de Elena Ferrante e dos caminhos de vida de Lina e Lenu. Ontem, ouvi um episódio incrível do podcast Mano a Mano, com a espetacular Glória Maria. Isso, de como algumas nós vai ter a habilidade de fazer diferente enquanto outras não, embora amarguem sofrimentos, mesmo com capacidade, inteligência, estão nessas duas narrativas.

Já trabalhei num lugar no qual as pessoas reclamavam dos salários, do tratamento e continuaram lá por décadas, resignadas ao sofrimento. É comum vermos mulheres insatisfeitas nos seus relacionamentos, sendo desrespeitadas, traídas, violentadas e permanecerem. Ou pior: reatarem, voltarem para relacionamentos falidos após terem partido. Por mais que faltem opções, sempre há muitas opções.

Dizem: a baixa autoestima, a falta de amor próprio nos faz permanecer, não nos mover, permanecer em lugares insalubres, impróprios. Não duvido. Porém, para mim, o que mais falta é coragem. Simplesmente coragem de fazer diferente. Sair da zona de conforto. Se abrir ao novo, encarar de frente o que dói. Lidar com os dados da realidade e transmutar.  

Nesse caso, não sei se minha coragem foi estimulada de alguma maneira na minha infância, se tem a ver com meu mapa astral, com meus genes. No podcast, Glória Maria deixa nítido que sua coragem foi só dela. Houve um estímulo familiar para ser uma mulher livre. Não para estudar e superar a pobreza. Não para abrir portas para outras gerações de talentosas mulheres negras.

Na tetralogia napolitana - só um pequeno spoiler -, vemos que Lina e Lenu possuem bastante coragem. Porém, a de Lenu, por mais que menos afoita, consegue vislumbrar novos horizontes, menos sofrimento quando comparada a de Lina. Lenu sabe ir. Lina, de alguma maneira, prefere ficar. Um episódio da infância denota muito bem essa diferença. Quando as duas resolvem fugir para conhecer o mar. No meio do caminho, diante das dificuldades, só Lenu tem coragem de seguir. Lina prefere voltar. Essa condição, de alguma forma, permanece durante toda a vida delas.

Observo essa mesma dicotomia de muitas maneiras à minha volta. Enquanto muitos permanecem sofrendo, outros tentam, se movem para contornar o sofrimento. Para quem não consegue sair do mesmo lugar, vestir a camisa de vítima pode ser confortável. Com isso, precisamos ficar atentas. Ao invés de acompanhar os altos e baixos da vida, os momentos de tempestade e temperança, inevitavelmente, a falta de coragem, pelo excesso de sofrimento a que ela nos conduz, pode nos tornar pessoas amargas, desagradáveis. Por isso, te sugiro todos os dias um shot matinal de não subserviência misturado ao destemor. Pode ser um pouco amargo, mas vai te fazer bem.


Anterior
Anterior

Por que um filme sobre um dos mais conhecidos feminicídios brasileiros é dirigido por um homem?

Próximo
Próximo

O que é prazer para você? Pensa comigo: como você tem acessado o prazer?