Mulheres são Pobres Criaturas - mas não é por isso que  devemos classificar o filme como “feminista” ou “não feminista”. Fica vazio de significado 

Imagem de divulgação do filme Pobres Criaturas

O monstro criado por Frankenstein é apenas uma criatura. Bella Baxter é uma pobre criatura. Parte da construção teórica feminista tem como representante Simone de Beauvoir, escritora do livro O segundo sexo, que aponta a condição de subalternidade da mulher perante aos homens. Apesar de existir várias formas de ser mulher, o fato é: ainda nos vemos, ainda nos vêem, como seres de segunda ordem. Até a nossa linguística revela. O homem é o ser universal. Não a mulher ou ser humano. Essa é a realidade. Isso não é uma ideologia feminista.

Somos tão seres de segunda ordem que homens se sentem no direito de controlar nossos corpos. Como mencionei num vídeo recente: uma mulher precisou cancelar sua compra do Perfeito, sem Defeitos, porque o marido descobriu e ameaçou acabar o casamento. E quais são as notícias recentes sobre Robinho e Daniel Alves? Esses homens entendem: direta ou indiretamente, o corpo da mulher a eles pertencem, nunca a elas ou aos seus próprios desejos. Isso é a realidade. Nossas instituições, nossas leis, ainda coadunam com essa realidade: homem sujeito, mulher objeto. De modo geral, a ideologia feminista entende: todos devemos ser sujeito, com os mesmos direitos e deveres.

Como as ciências sociais (incluindo as teorias feministas), as obras de arte, principalmente as narrativas, acabam tendo também um papel de interpretar a realidade, apontando problemáticas, controvérsias e sugerindo caminhos. Me debrucei sobre essa temática em meu doutorado. Bella Baxter, dentro da fantasia explícita no filme, evidencia uma mulher sujeito. Por não ser formatada dentro dos padrões sociais, ela não aceita convenções. Mas, há no filme as diversas e incômodas camadas de violência enfrentadas pelo fato de Bella ser mulher.

Então, por que o filme seria feminista? Por que não seria? Se nas últimas décadas superamos o paradigma de querer classificar as obras de arte de acordo com certos movimentos expressivos, se a arte contemporânea subverte as gavetas e encara colagens, qual o sentido de rotular uma obra? Mulher retratada como objeto estaria formatada dentro de uma ideologia feminista ou estaria revelando aspectos da realidade? Quando nomeamos a realidade como “feminista” ou “não feminista” me parece que inventamos um jogo entre Brasil e Argentina onde só um dos lados pode ser o vencedor. Qual o sentido disso?

Como o ódio engaja, como esses temas ditos polêmicos (faleci escrevendo isso) gera cliques, caímos num buzz estúpido que em nada colabora com a nossa evolução social. Com a nossa superação dessa realidade mesquinha. Um filme como Pobres Criaturas, apesar dos pontos frágeis, no meu entender, pode, sim, gerar despertares. Mas, esses debates me parecem nos fazer recuar, querer que obras de arte se enquadrem numa cartilha escrita não sei por quem. Qual seria a diferença de um red pill dizer que Pobres Criaturas é um filme feminista e uma feminista dizer que o filme não é feminista?

Falando nas artes narrativas como tramas capazes de revelar aspectos da realidade (para quem quiser  pesquisar a respeito, sugiro estudar Bruno Latour e a teoria ator-rede, dei uma mastigada nisso na minha tese de doutorado), o filme Pobres Criaturas vai muito além de tratar da subalternidade da mulher, apesar dessa ser sua contradição principal. Com ele, pensamos sobre a ciência e seus perigos, sobre as relações familiares (tem muito de psicanálise nessa parte), sobre as convenções sociais e nossa formatação diante delas, de bebês a adultos, sobre as próprias lógicas da sociedade burguesa e do trabalho. Então, por que raios ficamos nessa de: feminista, não feminista?

Opinião: Pobres Criaturas é infinitamente superior a Barbie (aqui tenho todo o respeito por Greta Gerwig) em revelar em profundidade aspectos da mesma problemática. Barbie, de certa forma, pode atingir um público maior e um pouco menos desperto. Mesmo assim, pode causar confusões. Confusões justamente sobre a ideologia feminista, a de que todos somos sujeitos, com os mesmos direitos e deveres pela forma como a trama se encerra, com as mulheres assumindo o poder na barbielândia e deixando os homens de fora. Por isso, talvez, alguns tenham entendido o filme Barbie como um feminista panfletário. O que não tem nenhum sentido também.

Fico preocupada: porque estamos pautando tão pobremente nossas discussões? As lógicas das redes sociais possivelmente são a resposta. Filmes podem ter uma função política quando revelam aspectos da realidade, promovendo despertares. Não todos, obviamente. Há muito perigo nisso porque as narrativas também nos fazem enxergar subjetivamente a realidade. Precisamos ser muito mais autocríticos, precisamos sair de certos pedestais, precisamos pensar sobre o que nossos movimentos tem gerado e o que eles podem gerar de positivo e negativo. Feminismo é luta, é construção científica (teórica, filosófica, ideológica). Subalternidade da mulher é fato histórico. Arte é arte. Não podemos confundir.


Anterior
Anterior

Você já enfiou o dedo dentro da sua lálá?

Próximo
Próximo

O dia que conheci João e contei do meu negócio. Esse negócio pelo qual sou mal interpretada e xingada todos os dias.