O dia que conheci João e contei do meu negócio. Esse negócio pelo qual sou mal interpretada e xingada todos os dias.
Anjo de Djanira Motta e Silva
Nos últimos tempos, tenho visto muitos debates de como se houvesse dualidade entre solteiras e comprometidas. De quem tem mais ou menos valor. A percepção de valor para a mulher casada, escolhida por um homem, é antiga e sabemos os porquês. Porém, se formos bestas e ficarmos nessa disputa, inclusive acreditando que nada é melhor do que ser solteira, esquecemos o principal: sendo mulher - casada, solteira ou vivendo qualquer outra condição - estamos vulneráveis à violência. E se competimos até nisso é porque, historicamente, fomos ensinadas a competir. Assim, vamos desviando do problema central.
Agora a fofoca. Fiquei solteira por quase 10 anos e foi incrível. Nem sempre fácil. Com muitos aprendizados, descobertas. Estamos sempre aprendendo e descobrindo. Desde a adolescência, quando comecei a namorar com apenas 12 anos (foi cedo, eu sei), nunca tinha vivido tanto tempo desvinculada da presença de homens em minha vida. Estando comigo, passando tempos e tempos sem nenhum casinho, pude me descobrir um pouco mais, entender com mais concretude meus desejos. Não significa que quem nunca tenha ficado tanto tempo solteira não possa fazer essa mesma jornada. Sendo solteira, talvez, seja um pouco mais fácil, mais necessário, só isso.
Antes de conhecer João, estava cansada de relações sem sentido. Pude perceber: após ter vivido e construído tantas coisas - ter saído de uma relação tóxica, terminado mestrado, me tornado professora, feito teatro, ido sozinha para o Rio de Janeiro fazer doutorado (no mestrado fui com um namorado), morar só pela primeira vez, me formar em cinema, ganhar um prêmio por uma peça de teatro escrita, enfrentar o início da pandemia completamente só e longe da família, voltar a morar com minha mãe em Olinda, defender minha tese como queria, ficar angustiada e perdida, abrir a empresa do Perfeito, sem Defeitos, conseguir me estabilizar, além das incontáveis experiências - estava sentindo vontade de viver a dois.
Como o peso da violência recai sobre nós, neguei meu desejo por tempos. Ficar só é uma forma encontrada de nos proteger. O fato é: mesmo solteira, estive vulnerável. Até o boy com quem saímos despretensiosamente pode nos violentar. Comigo, um desses tirou a camisinha no meio. E não era um desconhecido. É apenas homem. Então, o melhor é casar com meu perfeitinho e homi nunca mais? Mesmo assim, você continuará vulnerável. Vulnerável nas ruas, nas redes, no espaço doméstico e no trabalho. Há uma parte da nossa vulnerabilidade que é incontrolável (por ela, devemos lutar), e há outra que podemos ir nos munindo de ferramentas (o que ainda podemos nos desenvolver).
Com esse desejo de conhecer alguém interessante num mar de pessoas disfuncionais (não que João seja perfeito, longe disso), como sou o tipo de maluca que gosta de usar de técnicas de manifestação, de desenhar, escrevi algumas vezes sobre o tipo de relacionamento desejado. Uma pessoa que me honrasse estava na lista. Ou seja: alguém que também valorizasse o meu trabalho.
Para quem quer fazer uso da técnica de manisfestação - ela serve para tudo - o segredo é: desejar, sem controlar. Quando sabemos o que queremos, as energias do universo vão nos encaminhando. Ás vezes, demora. Antes, o universo vai precisar lhe encaminhar para outros lugares um pouquinho incômodos até você chegar lá. Isso é o que acredito.
Conheci João no Festival de Inverno de Garanhuns, no ano passado. Mulher oferecida nunca vai ser valorizada, certo? Se fosse por isso, nunca teria tido um relacionamento na vida. No after do after do Terra, ele me chamou para dançar um forrozinho. Acabei descobrindo: já me olhava há tempos, eu nunca tinha reparado.
Depois dos beijos com forró, o chamei para ir para a casa onde estava. Era a minha vontade. Ele brinca que dei um golpe, achou que o convite era só para me acompanhar até o destino. Dormimos juntos (não só isso, claro) e pela manhã fiquei na dúvida sobre seu nome. Minha memória não me ajuda. Esqueceria mesmo tendo o conhecido durante o dia, num evento só com água.
Foi nesse momento que de fato apliquei um golpe: pedi o seu @ para confirmar a identidade. Mesmo não tendo Instagram pessoal, o seu nome estava no da sua empresa de vinis. Já segui seu perfil. Ao ver o meu, ele deu uma arregalada de olhos e tentou fingir normalidade. Como se trata de homem, fiquei pensando se ele lidaria de boa com o meu trabalho. Nenhum sinal de incômodo. Depois desse dia, a gente não se separou mais. Na segunda pernoitada em minha casa, perguntou se eu tinha levado o Perfeito para usarmos juntos. Me honrar, honrar meu trabalho não é um grande mérito de João. É o essencial.