Você já enfiou o dedo dentro da sua lálá?
A convida 1945 de Dorothea Tanning
Pergunto isso com fins científicos, claro. Para quem já leu o link secreto que vai junto com o Perfeito, sem Defeitos, sabe do meu espírito de pesquisadora. Desde muito novinha, pegava espelhos para me investigar. A primeira vez que cheguei lá foi através do movimento das minhas mãos. Não suportava ler sobre experiências ainda não vivenciadas na revista Capricho. Acho triste a gente não ter conhecimento da nossa própria anatomia, acharmos feio, sujo ou errado se explorar.
Mulheres não são seres puros. Por não sermos, mas acharmos que deveríamos ser pelas infinitas imagens projetadas, rejeitamos nosso corpo, nossas particularidades. Achamos agressivo falar sobre candidíase. Algo que todas as mulheres experienciam em vários momentos da vida. Muitas de nós tem completa ignorância sobre esse desequilíbrio fúngico. Não sabemos identificar quando está acontecendo, o que piora, o que melhora. Não sabemos que candidíase pode causar dor e sensibilidade quando estamos acessando o prazer.
Ao entender um pouco mais dos infinitos seres habitantes do meu corpinho, quando olho para um prato de brigadeiro, desses feitos em casa para assistir um filme, já penso: candidíase. Meu gatilho é açúcar. Roupa úmida de praia/piscina também. Quando conheci João e rolou aquela maratona do início, aconteceu para mim e para ele. Afinal, embora a candidíase para homens seja menos frequente, também pode acontecer. Mas por que quase não falamos disso?
Vou ser chata num aspecto. Essa coisa de sagrado feminino me incomoda. Me parece nos afastar da realidade. Não que não possamos encarar nosso corpo como sagrado, mas as simbologias dessa narrativa ficam, por vezes, vazias. Parecem mais uma vez nos empurrar para a pureza. Ou, pelo menos, não conecta para a maioria de nós.
Se adicionarmos a nossa rotina, eventualmente, o hábito de inserir o dedo limpo e desinfetado (cuidado com a unha também) dentro de nossa lálá para acompanhar a característica do nosso muco, ampliaremos nossa capacidade de autoanálise. Se você der um google, vai entender sobre as diferenças do muco na fase pré-ovulatória, ovulatória e pós-ovulatória. Sabendo disso, não vai ser difícil perceber quando há algo de anormal e buscar ajuda médica. Quando você tem candidíase, não é porque você é suja. São só os fungos da sua flora que cresceram demais (o muco fica com característica de leite talhado). Pode acontecer, inclusive, quando fazemos uso de medicamentos, como corticóides e antibióticos.
Engraçado, esse mesmo estranhamento, do ser errado, sujo, aconteceu quando comecei a usar coletor menstrual há uns 8 anos. Minhas irmãs e mãe acharam um absurdo. A coisa de colocar e tirar algo de dentro do seu canal causa estranhamento para muitas de nós. Afinal, quem olha sua lálá, quem enfia o dedo lá? Para mim, não há coisa melhor que coletor. Hoje em dia, não consigo usar outra coisa. Ao longo desses anos, minhas irmãs e mãe foram superando o preconceito, as crenças do errado, sujo.
Uma fofoca, quer dizer, um spoiler: estou há alguns meses testando um coletor bem anatômico e gostosinho para trazer para vocês. Super diferenciado dos disponíveis no mercado. Ainda há questões burocráticas a serem resolvidas, mas espero poder lançar logo. Com o coletor Isy (um produto por Dani Burle), já esqueci por três dias lá, no fim do ciclo. Não deu nada errado, ainda bem. Depois do susto, fico colocando alarme no celular. Absorventes descartáveis, além de causar candidíase e machucar nossa região íntima, poluindo a natureza, são extremamente desconfortáveis. Sinto como se estivesse de fraldas. Não dá.
Pensa comigo: conseguiria imaginar a Virgem Maria ou uma princesa da Disney com candidíase? Ou menstruando? Ou chegando lá e molhando o colchão? Consegue perceber o quanto ideal de pureza nos afasta da realidade? Algumas de nós sentem dor ao se estimular e isso não é normal. A sensibilidade pode ser por conta de algum desequilíbrio em nossa flora (como no caso da candidíase) ou pode ser por uma infinidade de outras características orgânicas e não orgânicas. Às vezes, ao usar estimuladores como Perfeito, por não termos hábito, pensamos ser dor, mas pode ser só estranhamento à sensação. Mas pode ser dor. A questão é: pouco sabemos diferenciar. E nem sabemos quando buscar ajuda.
Hoje, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria já inclui as disfunções de dor íntima e a anorgasmia. Quando as mulheres são entendidas como objetos, não é de se estranhar que, quando acessamos o lugar de sujeito, sentindo prazer, bugue a nossa cabeça, cause dor. Para mim, esses casos refletem doenças sociais, ligadas a nossa cultura e não só as vivências individuais (embora os traumas pessoais também sejam relevantes). Pode parecer pequeno, mas, se apropriar do nosso próprio corpo, superando crenças, se explorando, pode ser uma forma de subvertemos esse sistema. Só de ter que escrever quase em códigos, mostra o momento no qual ainda estamos imersas.