A patologia do machismo e seu reflexo nas instâncias institucionais do Estado brasileiro.

Sala de Leitura de Djanira da Motta e Silva

Há algumas semanas, recebi o contato de uma leitora e soube de um triste aspecto da sua história. Quando decretou verbalmente o divórcio, a escalada de violências só aumentou. Mãe de uma criança de um ano na época, além de toda violência psicológica que já sofria, passou a sofrer violência patrimonial. Foi expulsa de casa, perdeu a guarda da criança. Um juiz homem julgou o caso e achou por bem manter a guarda da criança sob a posse de um violentador.

Seu ex-marido é funcionário público. Chegou a ameaçá-la: caso tivesse que lhe dar um centavo, mesmo em forma de pensão, pediria exoneração do cargo. Com esse relato, me lembrei de outra história. Minha avó teve um primo médico que fez exatamente o mesmo. Ficou com ódio da ex-mulher e pediu exoneração do emprego público num hospital federal. Abandonou a medicina e a filha a ponto de nunca mais vê-la na vida. Tudo isso por vingança; para não ter que dar um centavo do que julgava ser seu dinheiro para uma mulher que não lhe queria mais. 

Enquanto sociedade, para mim, é urgente encararmos o machismo como uma doença social. Precisamos patologizar o machismo e buscar formas ativas de tratá-lo individualmente e coletivamente. Pensa comigo: quais gerações futuras estamos criando quando submetemos constantemente um número considerável de crianças a esse tipo de violência?

Homens machistas e violentos são como são porque foram, de muitas formas, estimulados a ser. E isso não é uma defesa desses homens. Ou uma alegação de que eles não precisam arcar com suas responsabilidades. É só uma forma de ampliar o problema, um meio de compreendê-lo para criarmos estratégias eficientes de tratá-lo. E se vierem me dizer que a culpa do machismo é das mães que criam os filhos assim vou dizer: volte algumas casas. As mães são culpadas e os pais não por qual motivo? As mães, também criadas através de uma estrutura machista, mesmo quando tentam insistentemente fazer diferente, há a escola, há os filmes, há as lives red pill. Não tem como a criança ou adolescente não absorver esse status quo. 

E o status quo é a crença da sub-humanidade das mulheres, as mulheres como o segundo sexo como escreveu Simone de Beauvoir. Por que quando nos referimos coletivamente ao ser humano usamos a palavra homem ao invés de mulher? A etimologia das palavras revelam nosso inconsciente coletivo. Se a mulher não é um ser humano de primeira ordem a que ela se destina? Quando deixamos de servir, quando não aceitamos mais violências, muitos desses homens perversos, criados para serem perversos, nos submetem a ainda mais violências. Afinal, não nos dominar significa queda de valor, de poder, nessa invisível pirâmide que habita nossa mente. Se entendendo como fracassados, para esses homens não resta alternativa a não ser nos exterminar.

Somos mortas todos os dias fisicamente e simbolicamente por esses perversos homens. Infelizmente, homens assim, embora a grosso modo possam parecer exceção, não são exceções. Ao meu redor tenho vários exemplos de mulheres que foram agredidas fisicamente e mortas por seus companheiros. O caso Ângela Diniz, que escrevi há pouco, a forma de atuação do judiciário, como operou a defesa de Doca Street, como se manipulou a opinião pública, as contradições nas diversas formas de representação da história, refletem um pouco dessa crença da sub-humanidade das mulheres. Se não servimos, somos más, merecemos o estupro, a pancada, a fogueira.

E o que aconteceu com Dani Calabresa após denunciar o assédio de Marcius Melhem, seu então chefe, ajudando diversas outras mulheres a relatarem a mesma violência? Simplesmente passou a ser perseguida e atacada virtualmente por grupos orquestrados por quem lhe violentou, como mostra a pesquisa produzida pelo Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais da UFRJ (NetLab). Interessante perceber como as estratégias de difamação vão se apropriando das novas ferramentas de tecnologia e comunicação. Quando não estamos servindo, quando não estamos caladinhas, nos tornamos alvos. E ninguém quer ser alvo.

Acredito que uma hora vamos conseguir desmantelar toda essa estrutura machista. O machismo do indivíduo e também das instituições que, além de não proteger as mulheres, as revitimizam. Como é o caso da minha leitora. Não só de leis, estratégias no âmbito local de amparo e proteção das mulheres, precisamos de educação. Precisamos tratar severamente essa doença. E quais são os protocolos necessários para tratar essa doença? O que temos feito? Será que juízes são educados contra o machismo? Será que já trataram seu próprio machismo?

Não me interessa só ficar falando sobre o problema. Precisamos coletivamente encontrar formas de resolvê-lo. Estamos cansadas de ser vítimas, não queremos que nossas crianças sejam vítimas. Se o Estado existe para nos proteger, quando existirá um Estado capaz de encarar com seriedade a doença do machismo e tratá-la de forma eficaz e eficiente? Isso adoraria saber…


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