O que eu faço para não me importar com os comentários de ódio:
O dobro segredo de René Magritte
Como puxei esse papo no último vídeo publicado no Instagram, resolvi trazê-lo para cá. E não é que eu não me importe sempre. Com os homi xiliquentos, não me importo. O que eles dizem não me abala. Mas não deixo de temer violências, assédios. Não deixo de sentir.
Dia desses, estava numa loja e entrou um casal. O homem colocou sobre mim um olhar extremamente desagradável. As energias sutis são foda. Percebemos imediatamente. Fiquei incomodada. Estava até procurando um maiô ou biquíni para esse último vídeo. Tentei não ficar perto. Enquanto provava uns biquínis ele entrou na cabine do lado. Provou algo e pediu a opinião da sua companheira. E ficou enfatizando em alto e bom som - para eu ouvir, imagino - o quanto era maravilhoso ser casado. Não faço ideia se ele conhecia meu trabalho ou se estava me assediando. Não importa muito.
O que importa é o desejo latente que muitos homens têm em nos constranger, nos retirar a liberdade de sermos quem somos, fazer o que queremos. No fim, de atacar nossa existência se a nossa existência não está para servi-los. Conviver com isso diariamente é uma violência. São micro guerras diárias a serem enfrentadas.
Indo e voltando para Sibaúma, praia onde gravei esse último vídeo, a uns 40 min de Natal, no Rio Grande do Norte, ouvi ao podcast Desculpa Qualquer Coisa, de Tati Bernardi com Manuela D'Ávila. Se puderem, escutem e reflitam sobre como operam todas as formas de violência contra nós. Para quem não sabe, Manu decidiu não concorrer nas últimas eleições devido a quantidade de ataques e fake news. Essa estratégia foi para proteger sua saúde mental e também sua família.
Imediatamente, me lembrei do vergonhoso episódio do Roda Viva, quando ela foi a convidada. Convidada para ser atacada, execrada. É triste ter que falar o que vou dizer. Mas, num mundo polarizado se torna necessário. Está tudo bem você não concordar com as ideias de Manu. Está tudo bem você ter uma ideologia diferente da dela. Em certo sentido, eu mesma tenho. Uma sociedade avança através dos diferentes pontos de vista, debates e produção de conhecimento.
Quem ganha quando se paralisa uma mulher como Manuela D'Ávila? E sua pausa na atuação direta no executivo e legislativo não significa sua paralisação não, tá?! Manu continua super atuante. O que quero dizer é: quem ganha quando mulheres são caladas? Obviamente, o retrocesso.
Não que eu esteja super feliz, soltando fogos, concordando com tudo da gestão Lula. Tenho críticas como sempre tive. Produzi minhas pesquisas acadêmicas como um estudo crítico ao Programa Minha Casa, Minha Vida, a sua política habitacional e econômica, por não desenvolver um crescimento sustentável a longo prazo. Mesmo assim, hoje faz um ano que gritei de alegria, chorei de emoção, justamente por sua eleição. Estávamos mergulhadas no retrocesso e não podíamos continuar.
Não podemos continuar num mundo onde mulheres têm medo de sair nas ruas, num mundo no qual nosso parceiro, quem amamos, significa um risco. Não podemos continuar num mundo em que a nossa função é sempre dar, nunca receber. Ter um orgasmo pode parecer pequeno diante de tantas faltas. Mas não é. Já é algo. Já é um algo que produz outros algos.
Quando trabalhamos contra o retrocesso, quando somos mulheres, vamos ser atacadas. Ter segurança da nossa importância nos protege de não paralisar. Continuar, porém, não ameniza as violências. Resistir as porradas não significa que as porradas não doem. Que não sentimos medo. Significa apenas que nosso desejo de continuar é maior. É maior justamente por vislumbrarmos algo lá na frente que quem nos ataca ainda não consegue enxergar.