Coragem é um privilégio a se conquistar.

O lago de Tarsila do Amaral

Há anos, uma amiga acabou um relacionamento bem ruim. Fiquei feliz por ela. Falei com entusiasmo das maravilhas do seu novo momento, como ela poderia aproveitar o mágico período da faculdade e um monte de coisa mais. Resultado: ela voltou para o boy lixo, engravidou e largou a faculdade. Vive uma vida distante do que eu, no alto do meu julgamento, considero agradável. E, talvez, pelas suas constantes reclamações, também não lhe seja agradável. Com a faca e o queijo na mão, não consigo entender porque ela não fez diferente.

Uma parte de mim questiona (para mim mesma, lógico): porquê eu consegui e ela não? Será que é porque ela é acomodada? Será que tem a ver com seu mapa astral? Com sua relação familiar? Com seus traumas? Mas eu também tive pedras no caminho… Minha outra parte, entende: tudo que ela tem, tudo que ela é, é o que ela conseguiu ter, é o que ela conseguiu ser. Imediatamente penso: será que tive mais privilégios? Talvez sim, mas nem tudo é sobre privilégios, embora grande parte possa ser.

Uma das minhas neuroses mais ridículas é achar que as pessoas vão viver as mesmas descobertas que vivo. Meu ego, super egóico, me faz ter essa visão distorcida e fantasiosa. Uma das minhas grandes questões é: não tolero o sofrimento. Mas há, infelizmente, quem não consiga ou não queira de fato sair do lugar de sofrimento. Cada pessoa, mesmo com condições semelhantes ou quase iguais - como é o caso de irmãos - vão traçar caminhos diferentes. Construir visões de mundo distintas. Isso é a vida.

Embora estejamos sendo empurradas para certos lugares, sair desses não agradáveis lugares é nossa responsabilidade. Conseguir ou não está ligado a uma infinidade de fatores impossíveis de quantificar. Para muitos, uma forma de lidar com o sofrimento, com as injustiças, é se diminuir, se culpar, buscar formas de justificar. “Mas eu amo (insira aqui o nome do chernoboy)” não é justificativa para permanecer num lugar que te faz mal. Muitos, tipo os redpilhados, partem para agressão. A forma como se usa (ou usava, não sei) o finado Twitter expressa essa perspectiva. A forma como se agride nas mais diversas redes também.

Por quê que coletivamente somos tão tóxicos com o outro e com nós mesmas? Que visão sobre a vida nos falta? Fiquei pensando: será que não estamos imersos numa grande neurose coletiva de criar estratégias para evidenciar e ao mesmo tempo invalidar a nossa própria dor? Já parou para pensar como podemos ser escrotinhas a ponto de enfiar para debaixo do tapete o que dói para não lidar? De “justificar” o injustificável?

A vida não é um morango para ninguém, mas pode ser doce. O sofrimento nos iguala enquanto ser humano. Mesmo o homem hétero, rico, branco, sofre. Mesmo exercendo o papel de opressor, sofre. Inclusive, o molde para se tornar o opressor é formatado através de muitos sofrimentos. Não por acaso, Paulo Freire afirmou algo bastante contraditório e cheio de sentido: “E aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos – libertar-se a si e aos opressores”.

Diante de tantas faltas, tantas injustiças, eu, por exemplo, já me senti bastante culpada por ter tido acesso ao básico: uma boa educação, um lar, comida, família, lazer. Já surtei muito diante de tantas injustiças. Já adoeci. Sigo doente. Seguia uma comunicadora maravilhosa numa outra conta do Instagram que, infelizmente, não lembro o nome. Ela escreveu algo que me tocou bastante: não podemos chamar de privilégio o acesso ao básico; isso é uma visão distorcida da palavra privilégio.

Talvez, meu grande privilégio seja não suportar o sofrimento e tentar sempre fazer, fazer, aprender, caminhar. Com trinta e muitos, percebo: poucos, ao que parece, têm essa capacidade. E, para mim, isso é difícil de lidar. Tenho tentado muito mais aceitar, sem tentar quantificar as razões. Meu trabalho vem bastante dessa dor e da vontade de impulsionar. Porém, é bem chato quando tentam me agredir, me envenenar.

Não faz sentido nenhum pegarmos o escudo do privilégio para agredir o outro ou inviabilizar nossa trajetória, nossa dor. Isso, muito possivelmente, é só uma estratégia do nosso ego para distorcer o que não estamos querendo ver. Pode ser o básico, como nossa humana necessidade por segurança e amor. Às vezes, o outro é um espelho difícil de ser encarado. Através do outro, vemos o que não temos, entramos em contato com os nossos incompreendidos desejos. A partir do outro, percebemos a falta. E lidar não é fácil. Digerir injustiças adoece. Porém, o que estamos fazendo de fato para mudar? Para sair de certos lugares? Coragem também é um privilégio a se conquistar.


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