Parabéns, mulher. Por suportar tanta violência. Hoje trago luz sobre o que empresas e pessoas deveriam fazer no dia internacional da mulher.
Mulher artista, nua, de pé de Dorothea Tanning
Primeiro de tudo, vamos acabando com essa pataquada de “parabéns". Infelizmente, o “parabéns” foi instituído em nossa cultura pelos marqueteiros e publicitários - difundido com maestria pelas escolas, que criam atividades com base nas datas exploradas comercialmente. Capaz dessa coisa de “parabéns” ter sido inventada por João Dória pai para vender mais flor e chocolate. Fiquei pensando: se parabeniza as mulheres no 8 de março em outros países? Ou isso só existe no Brasil?
Parabéns, índio, por ter sobrevivido a tanto massacre e exploração. Parabéns, para você, nesse dia, por ter nascido gay, lésbica, transexual (ou outra condição da sopa de letrinhas) e sofrer toda essa perseguição. Parabéns, negro, por herdar todas as mazelas da escravidão. Qual o sentido de dar parabéns para uma mulher? O “parabéns” não é para nos valorizar, não se engane. O 8 de março existe porque lutamos para ser sujeito, o “parabéns”, a florzinha, o “mulher forte”, “mulher guerreira” e tantas outras coisas acaba nos empurrando para o lugar de objeto.
A cada 5 minutos deste dia tenho chiliques com campanhas, promoções, ações, além dos infinitos parabéns. Não preciso ser grata por algo que me fere, não tem como me sentir valorizada. É ao contrário. Fico lembrando o quanto somos submissas. Na escola, escutava: “hoje é dia da mulher, mas todos os outros dias são nossos”, diziam os meninos debochando. Até o 08 de março continua sendo deles. São eles os protagonistas a nos entregar uma flor ou dar parabéns (lembra da relação sujeito-objeto). Muitos usam o dia até para flertar. Um ex-boy-lixo fez isso, como contei na legenda do vídeo postado no dia.
Como me mandaram parar de ser chata, amarga, resolver o problema, ao invés de ficar reclamando (engraçado como tudo cai nas nossas costas), deixo ideias para o futuro, para o próximo ano. Sou homem, o que devo fazer no dia 8 de março? Pedir desculpa pela minha existência? Não, amado. Você precisa se responsabilizar, principalmente se é branco. Que tal refletir sobre o machismo e expor nas suas redes ou em conversa com os amigos? Que tal reconhecer as cagadas feitas com as mulheres, pedir desculpas e agir diferente? Que tal ler um livro escrito por uma mulher? Consumir o que compomos, não o nosso corpo?
As empresas precisam muito mudar. Acabei indo na manicure e recebi um prendedor de cabelo pelo meu dia. Quando criança, ainda sem tanta noção, já odiava os presentinhos (normalmente, um sonho de valsa entregue pela escola). Adulta, as flores e outras porcarias. Que tal você, empresa, fazer um ciclo de combate aos diversos tipos de violência e assédio nos ambientes de trabalho? Que tal usar esse dia para fazer uma investigação de quantas mulheres ocupam os cargos de liderança, se há equidade de salários? Que tal oferecer folga para as mulheres irem às passeatas? Pode não fazer nada também…
Para as empresas, comunicadores e influenciadores, não é dia de criar campanhas com hashtags, promoções e cupons de descontos. Fica feio, vazio de significado. Hoje, um bom marketing é construído na relação de confiança. Empresas que incentivam a autonomia feminina têm chances, a longo prazo, de se consolidarem mais. Já vejo acontecer. Esse deve ser o futuro.
Por exemplo, foi interessante como Nathalia Arcuri abordou o dia na sua conta do Instagram. Fez um vídeo falando as frases que já escutou por ser mulher, indicou formas mais inteligentes de investimento (afinal, não existe autonomia sem independência financeira), ressaltou o quanto outras mulheres abriram espaço (incluindo as da família) para que ela e nós possamos viver com um pouco mais de liberdade. Não usou o dia para vender seu curso, não fez uma publi para uma corretora de investimentos, nem para uma marca de maquiagem. Isso é ética.
Quem trabalha com vendas (eu inclusa) precisa vender para manter o negócio girando. Minha equipe até pensou em criar uma ação no dia. Mas, isso me incomodou. Precisei mergulhar no incômodo para entender. No fim, não acho ético. Acredito fazer muito mais sentido usarmos os olhares e ouvidos desse dia para incentivarmos a não violência, a não exploração, a autonomia e liberdade feminina. Pequenas e grandes empresas podem usar seu capital para promover tais valores, sem necessariamente ficar vendendo, gerando buzz com o nome da marca. As vendas vão acontecer e talvez de forma muito mais lucrativa.