Ser homem e desrespeitar mulheres, mulheres grávidas, infelizmente, é lugar comum.

O pianista mascarado de Remedios Varo

Semana passada, ouvi a seguinte história: “quando minha filha tinha 5 meses de nascida e eu enfrentava o luto pela perda repentina da minha irmã, descobri que meu marido mantinha outro relacionamento; disse para essa segunda mulher que eu havia morrido no parto e que criava nossa filha sozinho.”

Como essa dor é comum a quase todas as mulheres, acabamos semana passada, todas nós, sofrendo um pouco com Iza. A estrutura social, a masculinidade produzida por ela, em regra, formata homens mesquinhos, fracos e violentadores, como o jogador do Mirasol, como Neymar, como esse homem que não foi capaz de respeitar uma mulher em luto e vivendo os primeiros meses de sua descoberta da maternidade.

Esse medo, esse fantasma, tem me atormentado, confesso, desde o momento que me descobri grávida. Se por um lado, há uma idealização de que, agora, estou tendo a oportunidade de constituir uma família, por outro me arrebenta um medo profundo da solidão, do abandono nesse incrível e difícil processo.

Como são as histórias da nossa família? O abandono paterno, mesmo com a presença física, a desconsideração a uma mulher grávida, recém parida ou com crianças pequenas é ou não é uma realidade? E, óbvio, não precisamos estar grávidas ou ter filhos para sermos desrespeitadas. Somos o tempo todo.

Tenho entendido que não tem como não ter medo. Mesmo sem motivos concretos, em minha cabeça, fico pensando estratégias. “E se, desde agora, for encarando que estou sozinha nessa?” Mas isso é justo? Justo comigo? Com meu filho? Em minhas relações anteriores, era simples, embora doído, era adeus e pronto. Quando temos um filho, tudo se torna diferente. 

E, embora só nos reste ser fortes, também não acho justo que tenhamos que ser fortes. Quero ser amada, respeitada, cuidada, protegida. Quero e preciso que todas as responsabilidades que envolvem ter um lar e uma família sejam compartilhadas. Esse é o justo.

Não só são as mulheres vítimas dessa realidade. Os homens, filhos de homens incapazes - ou seja, a grande maioria - também são vítimas. Pessoas que não se identificam com o gênero designado em seu nascimento são vítimas. Somos igualmente e em totalidade vítimas. 

Romper esse ciclo, por isso mesmo, é tão importante. Para mim, o caminho sempre é a consciência. Tem muitas ferramentas a serem usadas. Mas, primeiro, homens precisam estar abertos a encarar esse incômodo processo e não sair dele, já que é, sem dúvidas, um trabalho para vida toda. 

Sendo uma mulher um pouco mais consciente, também fico pensando como vai ser criar um menino. E também fico cheia de medos, incluindo o  de traumatizá-lo. Com toda certeza, vou. O desafio é: como criar um homem forte, com índole e autoestima e ao mesmo tempo consciente de toda violência masculina? Outro dia, larguei no trânsito um “só podia ser homem” e pensei: “preciso urgentemente parar com isso”.


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Nós, mulheres, não aprendemos a estabelecer limites.

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