Mulheres também se sentem frustradas porque dedicaram grande parte do seu tempo, da sua energia, ao cuidado, aos homens.

Sem título (1954) de Gertrude Abercrombie

Já repeti sobre esse meu incômodo inúmeras vezes durante a análise. Sempre me incomodou o fato de várias mulheres à minha volta abdicarem de aspectos da sua vida, das suas carreiras, para se dedicarem à carreira ou a projetos de seus companheiros.

E das vezes que citei isso, não foi porque me sentia superior por não ter feito o mesmo. Era justamente pelo medo de me apaixonar e abdicar de partes de mim. Afinal, somos treinadas para ocupar o segundo lugar, para cuidar, para secretariar a vida de quem amamos. E não que eu nunca tenha me colocado na posição de secretária. Nas vezes que isso aconteceu ou quando hoje em dia acontece, meu medo deve me trazer certa luz. Assim, acabo não demorando nesse lugar.

Quando tinha 20 e pouquinho, um ex-namorado me fez a proposta de nos mudarmos para outro Estado, seu projeto era trabalhar lá. E minha faculdade? Ah, você transfere. Impossível, não vou largar minha vida para seguir a dele, pensei. Um outro desejava ter minha companhia enquanto fazia seu doutorado sanduíche na Europa. Pensei ser possível, caso também fosse fazer o meu doutorado integral lá, e se depois ele ficasse o tempo necessário para finalizá-lo. Acabamos discordando sobre o lugar e minha relação com ele não era nada saudável. Outro fim. 

Calma, se você me lê e optou por seguir a vida de seu companheiro, não escrevo isso para te fazer sentir culpada. Você fez o que pôde fazer, com as ferramentas que tinha. E para muitas mulheres, seguir seus homens não significa necessariamente derrocada, quando se cria nesse espaço de mudança propósitos para sua própria vida. Depende, obviamente, das relações construídas. Mesmo assim, não é legal não ser nunca a protagonista da sua vida.

Para muitas de nós, mesmo não tendo mudado de Estado, de País, abdicar de partes em função de nossos relacionamentos, da carreira ou projetos de quem nos relacionamos, significa caldos e mais caldos de frustração. E o pior é não conseguimos, muitas vezes, perceber que grande parte da nossa frustração vem exatamente desse lugar. Ficamos perdidas, ansiosas, depressivas, exauridas, culpando coisas que até são culpáveis, mas não vendo o todo.

Somos sujeitos da nossa vida, mas, sem muito refletir, vamos ocupando o lugar de objetos. Abrindo mão de sonhos, planos, aspirações em função do outro. E pode ser também em função do cuidado dos nossos filhos, dos nossos pais ou familiares, quando os homens de nossa vida simplesmente abdicam dessas tarefas, de entender que nossos desejos também são relevantes. Por tentar segurar todos os pratinhos, somos nós, mulheres, as mais suscetíveis a burnouts.

Atrasada, bastante atrasada, só esse fim de semana assisti ao filme Nasce uma Estrela com Bradley Cooper e Lady Gaga. A obra é quase uma antítese mal sucedida desse lugar que mencionei, das mulheres seguindo seus homens. Ela segue de início, depois se torna autônoma, mas de uma forma narrada como “vendida ao mercado”, afinal quem dita as regras são os homens e é seu empresário que a empurra para esse lugar, o seu marido a culpa por ter perdido a essência e depois vem a tragédia. O filme é bonito, mas isso me incomodou. 

Me lembrei do documentário da vida de Gaga na Netflix, devo ter assistido em 2017, quando foi lançado. Nele, ela conta como seus relacionamentos amorosos são trágicos. Nenhum dos homens suporta sua rotina, seu brilho. No fim, uma mulher protagonista é insuportável no mundo no qual vivemos. Então, eles dão um jeito de nos punir. A gente nos pune. Fibromialgia, síndrome do intestino irritável e um monte de coisa mais, por sermos e por não sermos.

Por qual caminho seguir para termos uma relação mais saudável com a vida, com o outro, com nós mesmas, é o que - ainda - precisamos descobrir. Afinal, são muitos pesos. Talvez, ainda estejamos compreendendo o problema, buscando nos priorizar, lidando com as frustrações, medos e culpas. E, aos poucos, pensando em alternativas.


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