De millennials a burnouts - por que nossa geração é tão obsessiva com o trabalho?!

Girafa em chamas de Salvador Dali

Que tal aproveitarmos os ares do eclipse solar no eixo Áries-Libra, somado a mercúrio retrógrado para pensarmos a respeito? Para quem não sabe, o termo “burnout” se refere ao esgotamento físico e psíquico, quando damos um piripaque do Chaves e adoecemos pelo excesso de trabalho. Como Freud é injusto com a mulher, afinal toda culpa recai sobre a mãe, poderia muito bem culpar a minha mãe por ter me colocado todas as pressões do mundo. Pressão para estudar, trabalhar, para dar certo na vida, ser alguém… 

Ultimamente, por conseguir gerar certo impacto com meu trabalho, acumulando algumas moedas, até já sinto que dei certo. Mesmo assim, continuo no estado de tensão, pressão. Me pergunto: isso nunca vai acabar? Tenho sentido ódio de João por, igualmente, não parar de trabalhar. O acuso de ter certa fissura de garimpar discos de vinis e nunca parar. Reclamo por não estarmos tendo tanto tempo em casal pelo excesso de trabalho. Mas, não sou diferente. O espelho incomoda. Tenho odiado meu reflexo.

É difícil mensurarmos o suficiente quando estamos sempre na iminência de derrocadas, de revoluções sociais que mudam cada vez mais rápido as lógicas, a forma do trabalho, como a mais recente, a da inteligência artificial. Pode ser que amanhã com esse calor todo a gente nem exista mais. Será que faz sentido corrermos tanto? Pela necessidade de sobrevivência, deve fazer. Mas, por vezes, não seria só ansiedade? Medo? Uma coisa de ficarmos freneticamente girando ao redor de nós mesmas?

Rolando o feed esses dias, alguém falava da aridez de Vênus e Marte. E de como a Terra é um oásis em meio a nossa galáxia quente e tóxica. E também fria, se pensarmos nos corpos celestes mais distantes do Sol. Estamos girando ao redor de nós mesmas, se queimando de cansaço, mas em quê estamos orbitando? No medo da escassez? No desejo de reconhecimento? De ser reconhecido por quem? Pelos nossos pais? Pelo quê? Seria pelo genuíno desejo de contribuir? De ganhar mais? De acumular mais moedas e se sentir mais seguro? 

É bastante palpável nossos medos, como também parte dos nossos desejos. Mas será que damos conta de mensurar nossas fugas? Nosso adoecimento? A razão pela qual nos queimamos? Consumindo nossa energia até não restar mais nada? E quando pifamos, será que ficamos satisfeitas? Temos exaurido não só os recursos naturais do nosso próprio planeta oásis, como também nossos recursos internos.

Tenho uma hipótese sobre essa lógica no qual estamos imersas. Parte dela, convencionamos chamar de capitalismo. Já pensou que é do medo que o capitalismo surge? Antes de tudo, como estamos burros, lobotomizados pelo óculos da ideologia, pelos maniqueísmos simplistas - como exemplo do comunismo como oposto do capitalismo - quero deixar nítido: no momento, em minha medíocre opinião, somos o que precisamos ser. Não acredito em revoluções armadas, não acredito na centralização de poder.

O liberalismo, com suas imensas falhas, vem do nosso desejo por liberdade. A revolução francesa com todos os seus percalços reflete tal destino. Antes, estávamos no maniqueísmo de nobreza e plebe. Com destinos imutáveis. A modernidade, com todas as suas infinitas atrocidades, rompe com essa lógica (ainda que não completamente). Num mundo globalizado, as diferenças sociais se complexificam, pode haver mais liberdade, como também muito mais riscos, novas e piores formas de miséria.

Se o medo e o desejo de liberdade (também o desejo por reconhecimento e poder) nos fez perseguir acúmulos, seguranças, mais de tudo, mais de nós mesmos, só outra consciência, só outros sentimentos, poderá construir outro sistema. Essa é a minha hipótese. Um sistema que a gente não sinta necessidade de se queimar por dentro, de exaurir a nós mesmas e os recursos do planeta no qual vivemos. 

Minha mãe costuma dizer que minha geração, as do millennials (nascidos entre 1984 a 1995), é a mais ferrada. Projetaram sobre nós um mundo que deixou de existir. Nosso estilo de vida, nossa crise econômica, todas as transformações na lógica do trabalho, não nos possibilita ter o que desejamos. Incluindo, o descanso. Talvez - também -, essa segurança tão buscada não seja possível. Nossos pais e cuidadores nos criaram ambientados no medo. O medo de não ter, de não ser. Se não temos, se não somos, se não temos como saber do amanhã (ninguém tem), como não se queimar por dentro? Ainda não sei…


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