O que sente que merece? Tem se permitido sonhar?

 Submarino amarelo de Athos Bulcão

Quando decidi sobre o tema da crônica dessa semana, fiquei pensando: será que isso não é papo de menina branca, com vida tranquila quando comparada à realidade brasileira? Ontem estive na Arena Jeunesse, no parque olímpico do Rio de Janeiro, para assistir ao show de Djavan e tive certeza que não.

Inclusive, para mim, é fácil encontrar certas certezas. Isso me ajuda em muitos processos. E também atrapalha. Sou meio cabeça dura, demoro a desviar de certos caminhos, posso parecer e ser meio intransigente, posso demorar a perceber que estou errada ou mudar de ideia. Porém, são minhas certezas que me fazem permanecer e seguir algumas estradas, apesar dos pesares (e, às vezes, são muitos pesares). Aos 18 anos de idade, Djavan teve a certeza: queria ser cantor. Ao 74, deve sentir: sua certeza foi certeira, seu sonho foi e ainda está sendo realizado. Ontem, umas 18 mil pessoas o aplaudiram de pé e cantaram com ele todas as suas icônicas canções. Foi bem emocionante.

Nascido numa família pobre, filho de uma lavadeira e um comerciante ambulante, Djavan, ao que tudo indica, não se furtou em sonhar, em almejar para ele o futuro que lhe cabia. Seus pais, também lhe desejando um futuro diferente, decidiram que o filho seria cadete do exército. Fugindo de um sonho não seu, Djavan foi morar no Alto José do Pinho, em Recife, com um primo. João, meu companheiro, me disse que ele chegou a trabalhar como servente de pedreiro nesse período. Não cheguei a encontrar essa informação em fontes oficiais.

Longe de querer criar um papo meio meritocrático, o que quero dizer é: a gente pode sonhar, a gente pode alcançar. Mas, primeiro, a gente precisa saber querer. E, segundo, a gente precisa se sentir merecedor porque se a gente não se sentir merecedor, não temos como estar numa arena com umas 18 mil pessoas batendo palmas para gente de pé. Conseguem perceber essas sutilezas? Aos 18 anos, fugindo de um projeto de futuro criado para ele, Djavan definiu: quero ser cantor. E lindamente tem sido num mundo nada favorável para um homem preto, nordestino, vindo de família humilde. 

Ser cantor, ser artista, é uma coisa grandiosa, de destaque. Essa não é a vida almejada para a maioria das pessoas, obviamente. E isso não é nenhum problema. Se você quer ser um servente de pedreiro, um mestre de obras, também é um lindo e importante ofício. A gente só precisa sentir qual vida nos cabe, o que de fato nos faz bem. Quando falo de merecimento, não falo só de trabalho. Há incontáveis esferas para almejar, para planejar, para executar. Primeiro, precisamos começar a sonhar. Segundo, a sentir que merecemos. Para mim, essa é a fórmula ou um pedaço dela.

A parada do não merecimento é como uma cebola com muitas camadas. Muitas vezes, nem sabemos que o sentimento de não merecimento está conosco. É preciso estar buscando a consciência, o autoconhecimento, para nos depararmos com esse traço ácido. Meio surpresa, descobri que o sentimento de não merecimento estava comigo algumas vezes. Um pouco mais atenta, fico tentando entender: de onde vem isso? Às vezes, são frases críticas ouvidas na infância, como “Daniella é muito sonhadora”, ou vem de contextos sociais, crenças coletivas emaranhadas na nossa mente. 

Me diz: você já viu um homem hétero branco sofrendo da síndrome do impostor? Eu até já… Mas, sem dúvidas, são as mulheres que mais se apequenam. Se pensarmos num contexto social de cor de pele, até os homens negros alcaçam mais espaços comparativamente as mulheres pretas. Pensa nos artistas pretos consagrados, com mais de 40 décadas de estrada nesse país, com certeza virá na sua cabeça muito mais nomes de homens.

Quando pensamos no recorte de gênero, há uma infinidade de pressupostos de futuro a mais a serem seguidos. A grandiosa Dona Onete, por exemplo, só conseguiu ser consagrada artisticamente após ficar viúva, quando, como ela mesma disse, experimentou a liberdade. Em entrevista ao Uol, afirmou: "Meu primeiro marido tinha um ciúme doentio. Se eu me pintava, ele achava que era para me mostrar para as pessoas. Eu era reprimida no jeito que eu queria ser. Vivia a vida dele, não a minha." Só depois da morte do segundo marido, aos 72 anos, que conseguiu se lançar aos palcos e viver o sonho de toda uma vida. Isso também é lindo. Nos lembra: sempre é tempo.

Daqui, não me furto em sonhar, em desejar, em buscar meios possíveis de viver minha vida do jeitinho que quero. De tentar me sentir merecedora. Da minha cebola, eliminei muitas camadas. Deve ainda ter várias que nem consegui chegar. Tenho uma percepção coletiva, não sei se você concorda comigo, as pessoas mais progressistas e sensíveis, diante das carências e mazelas do mundo, acabam se sentindo mais culpadas em sonhar, em sentir que merecem algo. Já fui muito assim. Pensa se isso não bate por aí. Talvez seja também essa camada, essa casca, que você precisa arrancar. 


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