A leveza seria realmente insustentável?

Raízes das árvores de Rafal Olbinski

Olhando ao redor, poderíamos categoricamente afirmar que sim. Sendo humanos, é insustentável sermos leves a longo prazo. Tem coisa humana mais bizarra que a guerra? Ao ler nesses últimos meses A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, um intelectual expulso do seu país, a República Checa, por conta da guerra, da invasão Russa, fiquei pensando o quanto falho nesse desejo de ser leve.

Nós, humanos, somos complexos e cheios de complexos. Como mostra a vida dos personagens do livro, nossa trama familiar nos atravessa, a história atual e a história ancestral igualmente. Talvez, busque a leveza como uma forma de bem-estar. Afinal, quem suporta viver tanto tempo em guerra? Em conflitos externos e internos?

Estou na internet produzindo desde 2018. Não tem nem dois anos que consigo ter esse alcance todo. E, não tem nem dois anos, vendo o Perfeito, sem Defeitos. Não sei se é porque comecei a olhar para isso, mas, nos últimos tempos, tenho ficado assustada com o peso nesse espaço. O ódio engaja na era dos algozesritmos, fato. Se o ódio é frequente na produção de conteúdo, o mesmo ódio tem sido frequente em quem os consome. Compartilho com frequência os xingamentos recebidos. Refletir isso me parece importante.

Faço um exercício de ler comentários nos mais diversos espaços. É espantoso como isso se repete. Desde a blogueira de maquiagem a quem ensina receitas. Por que estamos tão paranoitizados? São as guerras vividas que nos colocam nesse lugar? Não podemos esquecer, atravessamos uma pandemia, estamos imersos numa pesada e estúpida guerra ideológica política há tempos. Além das ainda mais estúpidas guerras concretas.

Em uma parte do livro, a personagem Tereza conta como era agradável percorrer as ruas de Praga, como as pessoas costumavam ser gentis. Mas, com os anos, com a invasão Russa e com a perseguição comunista, as pessoas se tornaram raivosas, segurando seus guarda-chuvas como se empunhassem espadas, não abrindo espaço, trupicando com ódio em quem atravessa seu caminho.

Estaríamos nós vivendo essa realidade? Nossa paranoia, nosso peso, viria de raivas, dores, compreendidas e bastante - ainda - incompreendidas. E não que tenhamos que ser sempre leves. Há um peso imensurável nisso.

Quem sustenta uma leveza insustentável, com toda certeza, acaba pesando para si. Sempre gostei de gritar, de rebater quem me agredi. Não costumo ficar calada diante de algumas injustiças (não tenho força de gritar por todas). Acho importante não engolir sapos. Faço minha terapia, penso sobre minhas questões, não sou perfeita, sem defeitos. Inclusive, acho: posso colocar certos pesos em quem está por perto.

Tenho uma coisa de querer me transformar para ser leve, para viver mais em paz. E, muitas vezes, isso significa muitas mortes, muitos renascimentos, muitas transmutações. Vou empurrando quem está ao meu redor (talvez quem me consuma também) para esse lugar. E esses processos são incômodos, pesados. A leveza e o peso, como também narra o livro, são polaridades a serem percorridas.

Para percorrer essas polaridades de forma mais proveitosa a gente precisa, muito possivelmente, saber se olhar. Entender o porquê as pessoas se portam como cães raivosos. Porque nós agimos como cães raivosos? Qual dor, qual insegurança nos faz ser assim? Não tem sentido nenhum irmos mordendo, agredindo, xingando, trupicando no outro porque não entramos em contato ou não compreendemos nossa pequeneza, nossa dor. É impressão minha, ou viramos pinschers? Pitbulls brabos, perigosos e cheios de raiva?


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