Por que um filme sobre um dos mais conhecidos feminicídios brasileiros é dirigido por um homem?
Imagem de divulgação do filme
Quero começar com uma mini palestrinha sobre o termo “lugar de fala”, cunhado por Djamila Ribeiro. Ao contrário do que muitos interpretam, ele não diz que só quem pode falar sobre algo é quem vive ou viveu esse algo. Não, você pode falar sobre o que quiser. Liberdade é valor instituído nas democracias. Aqui, valem colocar várias aspas, óbvio. Porém, quando falamos de algo, quando interpretamos a realidade, sempre faremos isso com o nosso óculos, a partir do nosso lugar, a partir da nossa vivência. Portanto, esse conceito nos faz refletir: de que lugar você fala o que você fala? De que lugar você compõe o que compõe? De que lugar você narra o que você narra? E por aí vai…
Assisti esses dias no Prime Vídeo o filme Ângela e fiquei putassa. É de uma tamanha pobreza o modo como recortam, narram e compõem imageticamente a história de Ângela Diniz, assassinada por seu companheiro em 1976, na Praia dos Ossos, em Búzios. Como alguém que estudou cinema, que escreve roteiros, enquanto o assistia - antes mesmo de olhar a ficha técnica - fiquei pensando: para que tanta cena de sexo? Por que tanto enfoque no corpo da atriz Ísis Valverde, que interpretou a Ângela? Que monte de clichê…
Não era difícil imaginar, apesar da roteirista Duda de Almeida, a equipe central é formada por homens. Nos filmes acaba acontecendo o seguinte: quem manda é quem paga e quem dirige. Como sempre, muito mais quem paga, pessoa ou empresa, é responsável por escolher quem dirige. Não conheço a equipe. Porém, está muito nítido (inclusive em todas as contradições): o filme apresenta o olhar de homens sobre uma mulher dita e pintada como rebelde. Não há embasamento para compreendermos quem é Ângela, porque Ângela é Ângela. A escolha do arco, com o final já conhecido e esperado, é pobre, muito pobre.
Quando estudei cinema e me formei roteirista na escola de cinema Darcy Ribeiro, aprendi e debati em diversas aulas e sessões de cinema que quando uma obra é bem feita, ao invés de ser preciso falar, narrar duramente a mensagem mais importante - no caso de Ângela o feminicídio e sua não justificava - é preciso mostrar, construir caminhos de compreensão.
O filme de Hugo Prata acaba com o assassinato da Ângela Diniz, seguido por letreiros falando do julgamento de Doca Street, da sua branda condenação, da ação dos movimentos feministas contra a forma do julgamento e, por fim, a proibição, apenas em 2023, do STF no uso da tese de legítima defesa de honra nos crimes de feminicídio, como aconteceu no caso. Porém, ele não mostra muito. Há um esforço muito perceptível para concentrar na obra muitos tons de beleza. A linda praia onde foi gravado, o corpo de Ísis Valverde.
A edição não nos deixa rastros da história. Não compreendemos as nuances das personagens, nem a patologia do machismo. São muitos recortes de beleza, de paixão também pouco compreendida e das lamúrias do casal. Para mim, o letreiro branco sobre um fundo preto no final pouco se conecta com as imagens e sons expostas. Se fosse uma narrativa composta por mulheres, haveria muito mais a ser dito, não tenho dúvidas.
Ainda não tinha parado para ouvir o podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, apresentado e idealizado por Branca Vianna. Fiz isso nesse fim de semana. Apesar de ainda não ter chegado até o final, como esperado, a diferença é brutal. O óculos usado para a compor é um óculos de mulher. Por isso mesmo, as táticas de atacar a honra da vítima antes e durante o julgamento são muito marcadas no podcast, como todos os outros absurdos e violências contra nós, mulheres.
Atacar nossa honra ainda é, infelizmente, comum. Basta olharmos para o recente caso Mari Ferrer, cheio de provas, com a absurda tese do estupro culposo, não condenação do acusado e ataque direto à vítima durante audiência. Agora pensa comigo: como seria um filme sobre o caso Mari Ferrer através do óculos de um homem? Utilizar óculos masculinos para contar as nossas histórias não seria uma forma de perpetuar violências contra nós, mulheres?
No caso do filme Ângela, não sei as entrelinhas. Não sei quem o idealizou. Li apenas que a Amazon comprou os direitos do podcast Praia dos Ossos para produzir uma série de ficção que também será dirigida por um homem (Andrucha Waddington). Nesse ponto, reafirmo: enquanto o dinheiro da produção audiovisual não vier ou não for colocado na mão de mulheres, não terá como assistirmos histórias através do nosso óculos. O discurso de Reese Witherspoon quando fala da sua produtora, no prêmio Mulher do ano pela Glamour Awards, explica exatamente isso (tem ele traduzido aqui). Daqui há alguns anos, sonho e espero poder contribuir com esse universo. Antes disso, preciso juntar alguns muitos milhões. Então, por favor, não deixem de comprar e indicar por aí o perfeitinho.